sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sexta às Nove (54)

Sua dose semanal de remédio musical.

Titãs, senhoras e senhores [e Calixto].



Uma melodia daquelas que não ouvia a muito tempo. Um empréstimo modal¹ na ponte², como sempre bem fica. Uma letra contadora de história como gosto. E ritmo de preto.

Tinha como ser melhor?

Não.

Deixe o pai de Marvin batucar na sua cabeça essa mensagem de vida.

Aproveite.

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Esclarecimentos:
¹ Empréstimo modal é um fenômeno harmônico onde, numa canção que está num determinado tom pega "emprestado" uma nota do seu tom homônimo. Exemplo da música acima: A música está no tom de si maior (B) mas depois adota o acorde de si menor (Bm) pertencente ao tom de si menor.

² Ponte é o que está entre o refrão e as estrofes.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Tédio

Poema declamado pelo grande Dublador Isaac Bardavid.

É reconhecível nos primeiros segundos, mas para título de informação, Isaac é o dublador - dentre outros personagens - do Wolverine.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sexta às Nove (53)

Sua dose semanal dde remédio musical.



Acho que cometi um crime dos mais imperdoáveis.

Explico: um amigo me recomendou a versão de Elis Regina da canção postada acima.

Então fui ouvir a tal versão... e não gostei.

É, também achei estranho. Gosto muito da Elis Regina, suas interpretações são vicerais e melhoram as músicas.


Por outro lado, sempre preferi as versões dos próprios autores das canções. Sempre achei que o compositor, o útero da obra parida (segundo a doutrina Calixtiana), teria algo a passar daquilo que dele saiu. E por experiência própria sei que cada pessoa que canta uma música, invariavelmente põe algo dela mesma na canção que canta. Mesmo que parece que o cantor nada fez, somente papagaiou a música, isso mostra que ele é oco. É fatal.

E com absoluta certeza Elis não era oca. Aquela baixinha tinha mais conteúdo do que muitos artistas juntos, somados.

Entretanto, entre a interpretação da Elis e dos Demônios da Garoa, preferi a destes. Não achei um vídeo de Adoniran cantando essa música toda, por isso não botei um vídeo dele mesmo cantando. Mas, por motivos estéticos, preferi a versão deles. Um samba, uma vez parido não se transforma em nenhum outro gênero. Não sem se revestir de um incômodo vazio. Mesmo transformar um Samba em Bossa, como fez Elis. Confesso: não aceito facilmente mudanças quando se trata de música.

Mãe é quem cria. E os Demônios da Garoa estão com essa criança há muito tempo.

Aproveite.

sábado, 6 de novembro de 2010

A experiência de escrever um romance

Estive muito a pensar em escrever esse texto. Até porque é de uma certa petulância afirmar-se escrevendo um romance. Romance é coisa para escritores, os verdadeiros, os capazes, os já consagrados. Eu ainda não posso me chamar de escritor, pois não tenho um livro publicado, apenas alguns contos em algumas revistas especializadas e outros que foram levados por amigos que conseguiram publicação. Mas escrever um romance é um pouco da demonstração de minha petulância diante do meu ato de escrita. Não que me vejo como escritor - apesar de este ser o meu mais óbvio sonho - porém estou mesmo na labuta de terminar um. E este é um trabalho árduo, muito pesado, lento e angustiante. Escrever um romance é a mais densa experiência que se há na escrita.
Já escrevi monografias, que julgava ser um exercício árduo, mas nada se compara a este trabalho de romance. Até porque, um texto leva ao outro, que leva ao outro. Hoje eu entendo o motivo pelo qual os entrevistadores sempre perguntam quanto tempo levou o Senhor Escritor para escrever a obra. Em média se fala de um período de três anos, ou quatro, ou menos, ou um pouco mais, no entanto sempre nesse período (não consegui comprovar uma afirmação sobre o período de escrita de Macunaíma, de Mário de Andrade, algo como duas semanas - depois de uma pesquisa de dois anos). Um conto de uma página - padronizada de Word - leva uma ou duas horas. Dependendo do que você quer colocar, pode até levar um dia, mas é simples escrever. Um conto é rápido, sintético, um doce de brincadeira. Alguns poemas também são tão rápidos assim, João Cabral, o engenheiro da poesia, já levou dez anos escrevendo um texto poético. Enquanto que esses dois modelos, por serem menores, podem ser rápidos ou longos, depende do que se espera do texto. Mas romance, meu Deus, é para lá de extensivo. 
O meu caso: já iniciei três romances: um joguei fora, o outro estagnou-se e o terceiro está sendo a literal evolução de um conto. Entende-se por romance a diferença entre singularidade e pluralidade de um texto em prosa. Histórias com um personagem principal, uma situação, um clímax, um ambiente, ou seja, na limitação de singularidades, é um conto. O romance já seria tudo no plural, vários entrecortes, personagens, situações, capítulos, diz-se como algo por romance. Mas isso é algo ainda muito, mas muito árido de se realmente definir. Saramago mesmo dizia que sempre escreveu contos ao invés de romances, mas era definido romancista por uma facilitação de venda de sua obra. Eu apenas julgo estar escrevendo um romance, por ser uma clara evolução rítmica às pluralidades, algo que aprendi com o Escritor - pena só ter o E maiúsculo aqui, assim colocado por uma mera questão estética textual - Antônio Torres. Ele é romancista em sua excelência. E tentar escrever esse romance é ter Antônio sempre aqui ao meu lado, como se por cima de meu ombro, dizendo o que posso e o que não posso. Por isso, a evolução de meu texto é muito lenta. Escrever uma página me custa um dia de observação do programa de digitação, ao mesmo tempo em que tive que reler tudo o que escrevi. O meu primeiro chegou a setenta e poucas páginas e o claro julgamento de que ficou uma bela porcaria. O segundo - resultado de uma ideia que tive quando tomava banho - está estagnado, julgo ter perdido o fio da meada. O terceiro, resultado de um conto para um livro coletivo, não se prendeu ao fim do ponto e resolveu seguir seu caminho. É o primeiro romance em que a obra está totalmente viva, única, alheia às minhas vontades. Enquanto que os outros eu muito pensava para colocar uma palavra ou vírgula, nesse último o livro apenas me usa como digitador. Eu sou um útero, a obra me escolheu como fonte para o próprio parto. 
Não me lembro bem de quem um dia me afirmou que toda obra escolhe a pessoa por quem ela quer vir. A ideia é na verdade algo metafísico, a escolher por que fonte humana ela quer nascer. Nós, em nossa megalomania, achamos que fomos nós que a escrevemos. Todo o trabalho que temos em muito escrever durante a adolescência e o início da fase adulta, domando o pensamento e a mão atrás da melhor frase, é um falso julgamento próprio, é no fundo a ideia que vai nos dirigindo para chegar o momento certo para poder parir-se. Perceba o pronome, parir-se. Por isso, posso afirmar agora que a obra, que há naquele romance, me escolheu para parir-se depois de tanto tempo me imaginando capaz de poder escrever algo. Até posso dizer que escrevo algo. Mas será que agora é um romance mesmo?
Termino na pergunta, em função da sensação de estar próximo da possibilidade de certeza. Gostaria muito de ter a sensação de certeza, de me laurear escritor - para mim, só é escritor verdadeiro aquele que consegue publicar algo digno -, mas vejo que eu não detenho a fina chance de poder dizer a mim mesmo tal e que somente forças maiores e subjacentes é que, talvez, um dia me deem a chance por tal. Espero ansiosamente, como uma criança na espera do presente de natal. E se esse dia chegar, juro nunca mais largar o brinquedo, pois a muito tempo que estou na brincadeira. E ela é gostosa. Imagina, então, quando tiver o danado nas mãos? Esquecerei até de comer. Algo que os meus mais próximos amigos sabem que sou um senhor praticante. Na arte de comer já tenho a consagração. Só me falta agora uma outra, que espero ansiosamente, mais do que nunca. 

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