segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Irmãos

Irmãos.

Todos temos. Mesmo se filho único, temos o eleito, o não sanguíneo, mas que num jogo de futebol você ralou o dedão junto com ele. Logo, verdadeiro irmão de sangue. E irmandade, no sentido amplo, é a pura felicidade. Não tem coisa mais feliz do que brigar com irmão, roubar-lhe o pão acabado de ser preenchido com requeijão ou dar uma tapa e depois correr. Irmão serve para isso: para aprendermos o mais lauto sentido do que é ser feliz.
Eu tenho dois, de ventre. Da mesma produção paternal/maternal. Parecemo-nos fisicamente. Mas é por aí que para. Somos tão distintos em nossas semelhanças, de rostos parecidos e vozes roubadas e pensamentos congruentes, que nos distinguimos quando concordamos com as mesmas escolhas. Ter irmão é isso: o mais puro senso de singularidade. Você se vê nele, mas ele não é você.
Nessa primeira microcomunidade fraternal, você divide o quarto, algumas roupas e dúvidas. Brincar ou ver televisão? Aprende que egoísmo não leva a nada e que o melhor é viver nesse convívio. Com irmãos, aprendemos a liberdade da molecagem, quando se disputa um verdadeiro campeonato de arroto, por exemplo. Ou de qualquer outra coisa, irmão também serve para isso. Irmão serve para tudo.
Quando exploramos o princípio da vida adulta, irmão nos mete ou nos tira de enrascada. Eu, que era o mais velho, costumava dar aquela ajuda ao meu irmão mais novo, sempre o mais nervoso de nós três. O meu irmão do meio sempre teve um espírito zen budista. Tanto que se tornou o mais religioso de nós três. Em matéria de namorada também, quando a ficar com a irmã mais nova – e consequentemente mais feia. Vou aqui confessar uma situação que passamos há muito tempo. Eu datava de uns 17 anos. O mais novo com 13 e o do meio com 15, possivelmente 16. Estávamos em uma viagem para Bahia. Aquele sentimento de curtição, uma vontade abrupta de querer viver novidades. Na praia de Trancoso, soubemos da área de nudismo. Corremos. Muito. Lá chegando, nossas expectativas foram severamente abandonadas. No caminho de volta à Escuna, apareceram três meninas. Três. Conta exata. Sem mais nem menos. Uma linda. Uma bonitinha. A outra, bem, nem se conta. Tadinha. Precisava de muito apoio. Malandro que era, consegui uma. Nisso que cheguei, falando como um típico carioca, as outras também vieram. O mais novo correu para o salvaguardo possível. O outro irmão nos olhava com uma cara de pedido de ajuda, socorro típico. Foi pela irmandade, hoje diremos, que ele ficou com aquela que sobrara. Acho que daí seu espírito religioso tomou dimensão; passou a fugir de capirotos.
Com o tempo, a vida nos joga para a rua. Ensino Médio descobrimos novos irmãos. Isso, no luxo de conseguirmos amigos que nos sigam para toda a vida. Eu tenho dois pelo menos. Dedico algumas de minhas conquistas literárias a ele. Na faculdade surgem outros, muitos. Coleciono uma penca particular de felicidades. Três meninas. Meninos, aos montes. Pessoas com quem divido a sala de aula. Todos em simbiótico espaço no meu coração.
Com a carreira de escritor, muitos outros. Paixões severas que me tomam as pálpebras e corroo com eles a tristeza que imprime a pisada dos cotidianos mais severos. Paixões não só por suas capacidades como escritores, mas como seres humanos.
A sala de aula também nos dá professores e alunos amigos. Cada ano eu ganho mais um. E mais um e mais um e mais um e mais um. Sei que minha casa é pequena para colecionar tantas fotos de cada um desses novos amores. Mas o coração de quem tem irmãos é enorme, adornado do mais puro e doce calor. É como uma colher de pudim dividido. É um abraço diferente todo santo dia.
Até digo, se você conseguiu passar a vida sem irmãos – das mais variadas naturezas – aconselho a encontrar. Essa é uma das maiores justificativas da vida.
Feliz dia do Irmão.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Mais 20! Por favor!

Uma ficha me cai neste início de ano: conemoro em 2016 vinte anos de magistério. Pode parecer muito, vinte anos de uma mesma coisa, uma mesma profissão, que durante muitos dos meus primeiros anos eu fui dissuadido de continuar, claro, diante de tantos, sinceros e válidos argumentos sobre ela, digo, como passaram rápido esses vinte. Como me foram apressados, ainda não sinto a canseira da mesmice. A vantagem de ser professor é que mesmice não existe.

Lembro-me bem quando com meus 16 anos eu me tornei monitor de inglês do Fisk, lá na minha lha do Governador. Era um imberbe metido a besta, que estudava com afinco o inglês e que precisava ajudar em casa. Juro, nem pensava mesmo em ser professor. O sonho daquele oblongo garoto era ser desenhista industrial de carros, pois era só o que eu imaginava. Os quadrinhos e a literatura eram sonhos à parte daquele amante de imaginações. Como gostava de imaginar coisas. Como gostava de pegar o ônibus e ir ao Fisk.

Lá descobri alunos. Em alguns, amigos. Em constância de explicação, fui tomando gosto pelo raciocínio aprofundado. Queria saber mais para explicar mais. A ilustração de carros passou a ser deixada de lado. Livros, quadrinhos e histórias, eu precisava de todos. Passei a ler desenfreadamente. A estudar um tanto mais. Aqueles meninos precisavam saber. Com o tempo tudo foi se mesclando. Abandonei desenho. Eu era de Letras.

Se alguém falou algum dia falou com você que dar aula era uma cachaça, como ele estava certo. Esse troço é muito bom - cachaça e aula, e hoje não me vejo fazendo mais nada além disso. Tudo bem, estou aqui escrevendo, publiquei livro, vou publicar outros, é também uma profissão, mas só agora que me dedico bastante à escrita, à sala de aula me detenho mais.

Minha primeira carteira assinada como professor eu só consegui em 2001. Colégio Pinheiro - acho que nem existe mais - ali na Penha. Ainda como professor de Inglês, desta vez para Ensino Fundamental. Antes disso, na faculdade, dei aulas de Língua Portuguesa e Redação em Pré-vestibular comunitário, em São Gonçalo e Alcântara - Locus Pré-vestibular, que saudade! Lá cultivei amigos que tenho até hoje. Professores. Alunos. Amigos.
Hoje dou aula em grandes escolas, estou na rede pública também. Nas várias realidades sociais há os vários sabores sa profissão. Sim, já senti o amargor dela, a tal da desvalorização, dos excessos, de algumas faltas de respeito, mas nada que me tirasse o gosto pela sala de aula. Esta cachaça tem constantes sorrisos.

Ok, sim, já pensei em sair de sala de aula. Já investi em concurso fora da área. Fui empresário - na educação -, já estive no jornalismo automotivo e cultural. Sempre afirmei que vim de uma geração poluída, que vive a escassez de emprego, a inconstância feroz da economia e a desvalorização ímpar do dinheiro. Temos no sangue a capacidade de rebolar e fazer dinheiro. Não muito, mas algum para defender o leite das crianças. Por sorte - ou acaso do destino - elas nunca me tiraram de aula. Não preciso mais de subterfúgio. Quero mais 20 anos disso.

Aliás , terei bem mais de vinte. Só pela prefeitura e Estado, tenho que me segurar até 2040. 24 anos até lá, ou seja, eu com 60 anos. Já predigo o texto : estou me aposentando, que tristeza! Enquanto isso, deixa eu voltar às salas, lugar de onde nunca sairei. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma Flor esmagada no trilho

Uma vez escreveu Drummond – poeta maior do modernismo – sobre a flor e a náusea. Neste poema ele retratava uma flor feia, cinza, que rompia o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio que acompanham o dia a dia de uma sociedade capitalista. Socialista que era, imaginava um mundo mais digno, mais justo, belo, mesmo em uma flor feia. Se estivesse vivo, penso que teria ele motivo para todas as tristezas do mundo ao ver que o corpo de um homem, morto atropelado por um trem no Rio, não parou locomotivas posteriores, “a cidade capitalista precisa mover”.
A história de um ex-presidiário transformada em uma crônica triste, noir, de um cotidiano balizado pela pressa, traduz a que ponto chegou a indecência humana em relação ao próximo. O corpo de um homem em cima de trilhos, morto ao tentar fornecer sustento aos seus familiares – ele vendia bala nos vagões – profanado pela necessidade de a cidade seguir – eram muitos passageiros que não poderiam parar suas vidas em torno de um morto – reflete o nosso desapego pelo próximo. “Era um presidiário mesmo”, alguns disseram. Este homem teve pouca chance à dignidade.
Como a flor feia de Drummond, que traduzia esperança diante da pura tristeza, aquela flor humana esmagada demonstra o cinismo humano em sua máxima delcaração. Mas podemos pensar que a sociedade se perdeu de vez? Não sou tão pessimista a esse ponto, mas como professor, ainda nutro uma esperança em bons sentimentos. Como escritor, traduzo uma incredulidade. Ação e percepção andam lado a lado. Tenho medo de ser completamente vencido.

Que esta flor pisoteada em trilhos crie uma nova história para nós, brasileiros, humanos fervorosos, tradutores de alegria. Bem, é o que espero, no final das contas. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

À Tia Macaca e Vovó Thetê

                Se houve alguma saúde esse ano, eu devo a vocês. Depois de tanta surra, se houve alguma barreira a Amostra, esta eu devo a vocês. Depois de tanta luta renhida, travada no silêncio dos bastidores, viver quase toda síntese da derrota, acusado como motivo, se Minha Pequena Essência da Felicidade pouco ou nada soube, se ela despertou ainda mais para a vida, para o desenvolvimento de sua inteligência, para o todo que ela pode se tornar, eu também devo a vocês. Devo muito também a vários. No entanto, não há débito maior que aquele que se faz sem as cobranças financeiras, mas na súmula íntima da dedicação e da necessidade de ver transformação. Se houve alguma transformação positiva, eu devo a vocês.
                Eu devo a vocês os livrinhos de jogos, desenhos e brincadeiras que ela recebeu. Eu que não tinha tempo para comprar, para ir à banca e olhar o que tinha a cara dela. Eu devo a vocês os exercícios feitos, a paciência que ela exigia, carente, tão carente, tão lá e não aqui. Eu que não fui tudo, mas algo tentei ser, no fim limite do meu trabalho, quando com ela, às noites, a brincar um pouco, a conversar um pouco, a ninar quando me sobravam seus pequenos olhos abertos. Agora ela e me está tão distante.
                Eu devo a vocês um muito. Um eterno pedido de agradecimento. Não é a primeira vez que recorremos, agora então como produto misto de tantas desgraças e perdas e realocações e refeituras, parece não haver tempo para um fôlego, é sempre maratona atrás de maratona, correria que se faz para correria, com pouca chance ao descanso, com nenhuma chance de tranquilidade. Ainda sim, agradeço, em meio a lágrimas sufocadas, gritos de desespero mordido de língua. Agora, limitado à imposta distância que se fixa à minha realidade, antes produto do sonho dela, agora só do infeliz eu, aqui sozinho estou. Vivo o cárcere das dívidas financeiras. Abandonado alimentando cachorros e mato. Vendo no entorno todas as desorganizações, as faltas de conversa, a crença cega de que era a capaz, eu aqui, limitado, vilipendiado, socado em feno como estrume, esperando ser ruminado na íntima virulência de todas as tristezas. Finitude bate à porta, como forma de libertação. Mas antes de buscá-la, vou honrar a cada um.

                Findo aqui esta minha crônica vontade de me redimir. Perdão por todo e qualquer erro que deixei acontecer, que vitimou cada uma de vocês duas. Fico-me mais tranquilo, entretanto, por saber que há vocês, há a Bisavó, a questionada que não deveria ser, ela é também alvo de minha paixão, de meu amor, de minha eterna gratidão em existir. Só peço que nessa nova jornada de paralelepípedos disformes em passos de salto alto eu não seja marginalizado, usado como argumento de motivo ou até esquecido. Eu nunca esquecerei vocês. Amo-as. Muito. E muito obrigado – por tudo! 

Natal de 2014

Desta vez não teve árvore
Enfeites
Rostos felizes de noéis chineses
A soar barulhos incompreensíveis que aceitamos como músicas de Natal

Desta vez não teve correria
De uma preocupação quando a casa fosse se encher
Com parentes que já ansiavam ceia
E todos os quitutes guardados
O cheiro inundando a casa
A geladeira segregando garrafas pet de água
Para caber mais e mais doces estupidamente enormes
Rabanadas estupidamente amontoadas
A luz da mesma geladeira pedindo socorro
Tudo que poderia traduzir um feliz caos.

Aqui dentro jaz o silêncio do esquecido
Daquele que não merece mais ser parte
A única palavra que pensa é Vilipendiado
vi-lhe pendurado
será que após serei perdoado
da estupidez que adorna raciocínios?

Vão-me dizer que escolhi
Fruto permitido da ogiva desta sua tristeza
A contornar mágoa com uma máscara
De íntima iniquidade de existir
O que você fez será eternamente perdoado
Pelos remédios que consomem esta sua lucidez.

Lucy in the Sky of Diamonds
Todos dizem que é eterna sensação de elixir
Mas o que eu quero era poder estar aí
Ritmando o caminho
Engenheiro de obras prontas
A dizer
Que a quantidade estúpida de rabanadas será pouca
Que a quantidade estúpida de doces será pouca
Que o tamanho do chester, tender, presunto, arroz, uva passa, nozes, castanha, refrigerantes, bebidas das mais diversas e tudo de todo o outro que agora me vem à cabeça será pouco.

Agora tudo são lembranças
Tudo são esquecimentos
São mágoas
São reticências

Marco o Natal de 2014 pela ausência da árvore de Natal nesta casa enorme
Tão grande quanto toda a tristeza que hoje ela adorna
Toda a injustiça que dela aflora
Eu que sou vilipendiado
Maltratado
Esquecido
Invalidado
Sem direito a porta de entrada
Com a porta de saída tão escancarada
Lá há alguém que me chama
E diz, “Vem, não há mais volta. Essa sua vida foi só revolta. Entenda o todo em que te transformaram. Aqui também não há luz. E esta é nossa sorte, pois nada e tudo se confundem”.

E de lá que hei de aceitar o convite.
Para cear.
Pela última vez.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

O uso das palavras certas

                Foi no terceiro fim de semana de Outubro deste turbulento 2014 que vivi uma situação ímpar em minha carreira como professor e escritor. A convite de uma pessoa que hoje tomo como exemplo para minha vida – como me são Petrônio, Meu Seu Luiz, meus irmãos e Chico Torres, marcas de perseverança - eu fui fazer uma palestra motivacional. A primeira em minha vida – na verdade, a primeira das primeiras. E deparei-me com algo para lá de inusitado, daqueles que marcam a pluralidade que hoje toma o todo que sou eu. Eu fui palestrar para um time de futebol.
                Eu só fui descobrir mesmo quando diante do fato. Eu que não entendo de futebol ia conversar com um grupo que simboliza a esperança do verdadeiro brasileiro. Antes de mais nada, era um time para lá de misto – em síntese das realidades cariocas – e que alimenta para si a glória da vida no gramado. Eu que nunca fui do gramado – só quando era dono da bola – palestrava para um grupo já pronto pro jogo. E atrás de mim o campo. Eles de uniforme. Eu de preto. A grama do verde mais cintilante.
                Por sorte compunham comigo este que me convidou – Sérgio Exemplo – sua mãe e o pai de um dos jogadores. Balizavam comigo um losango: eu a frente, Exemplo à minha direita, o pai à esquerda e a mãe, lá atrás, orgulhosa que só. E não era à toa. Fui juiz num momento em que muitos alimentam esperanças enormes, enormes até demais, em cima do futebol. Algo que vemos hoje inclusive em programas de televisão. Porém, na contramão de tudo, eu não simbolizava peneira ou regra, mas uma síntese daquilo que move a vida. Comigo eu tinha um apito em forma de PowerPoint e palavras de efeito.
                E a elas agradeço muito a ineficiência de minhas escolhas iniciais. Quando num primeiro momento supus que não as encontraria e neles não chegaria, o que me houve foi o inverso. Eu tinha tudo em mãos, todo um script de piadas ilustrativas, conclusões chaves e caminho certo para o teatro de apertar botão e concluir ideias. De nada me valeram. O que me valeu mesmo foi ver cada um daqueles rostos ávidos não só pela bola, mas por um futuro. Senti neles a necessidade de outras palavras, ali voando, transbordando na coerência daqueles olhares, no júdice que faziam do sonho que possuíam e do mundo que os esperava. Do PowerPoint eu não tinha como fugir, ele me serviu bem, foi condizente com a proposta. Agradeço a Senna e Chris Gardner, pois ali me salvaram. Palavras mais certas do que as minhas. Não à toa Senna é um herói ad eternum.
                Porém, não existe professor que não aprende, escritor que não lê. O conhecimento e a vontade são inerentes àqueles que movem a própria vida. Este que é novo Exemplo, bom aluno de uma das melhores escolas do Rio, investe parte de seu precioso tempo em um projeto para lá de ambicioso e fundamental para um mundo que hoje se constrói de individualidades pela ostentação e fotinhas típicas de um excesso de exposição. Sérgio pode, num primeiro momento, até se misturar nessa multidão de adolescentes preocupados com suas mínimas diferenças em iguais. O que descobri nesse fim de semana – digo até que um pouco antes do que isso – é que por trás daquela aparência de estudioso e preocupado com o próprio futuro há um coração que pulsa muita alma. Um adolescente – sem os arroubos de uma ideologia que o alimentaria normalmente a essa preocupação – que move de si uma força na confiança plena do ser humano.  Ali estavam meninos que querem futebol. Estava eu, a palestrar, a personificar uma educação pensada por Exemplo. Estavam um pai, uma mãe, com aquele fervor de sangue a pensar nos filhos. Estava Sérgio. Mal ele sabia: ele era toda a palestra.
                 Ganhei até uma caixa de bombons finos. Minha filha foi quem fez a festa quando os viu. Eu já tinha alimentado a minha esperança no homem. Saí dali com a certeza de ter encontrado toda a humanidade em renovação.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Crônica de uma anunciação possível

Semana passada, em uma das escolas em que trabalho, pedi à coordenadora, "Vocês têm um daqueles cadernos rejeitados por alunos?", não queria comprar um caderno novo só para escrever algumas elucubrações e digressões. Há muito que me via ligado a escrever - rabiscar, para ser mais exato - alguns poemas. A coordenadora disse, "Sim, tem muitos". Em não mais do que uma semana escrevi dezoito poemas, todos eles seguindo uma mesma temática, linearizando possibilidades de um livro. No momento, não nego, ando tão ligado à escrita de romances que os poemas me parecem uma sequência de capítulos, mas sintetizados a tal ponto de um capítulo de um romance que há tempo queria pulular. Se nesse ritmo me mantiver, realizo um sonho particular de escrever uma história em um mês.
Porém, não vejo tal com bons olhos, ser prolífico pode me tornar prolixo. O meu problema se dá, principalmente, na leitura. Se estou a ler algo que me agrada muito, ele me move à escrita. Semana passada e esta terminei um romance - Pedro Páramo , de Juan Rulfo - e iniciei outro - Identidade, de Marco Simas. A delicadeza com a qual Rulfo fala sobre a morte - suas vertentes e possibilidades - e a maneira como Simas se declina diante de um assassino - sua foracidade e ao mesmo tempo desapego - mexeram comigo de uma maneira muito particular. E estou a escrever sobre ideias antigas, que ainda se movem com certo incômodo.
Desde garoto eu tive fissura pela morte. Pela maneira como demonstra a vida e como nos dá uma chance para o feliz em cada segundo que há de se viver. Contudo, o aspecto singelo do prosaísmo, do lúgubre é o que mais me toca. A morte é o palco da beleza da vida. E é sobre ela em particular que ando escrevendo, destilando ideias que permeavam um antigo personagem, que se tornou personalidade durante um bom tempo – um processo de internalização que me fez muito bem, durante algum tempo, como maneira de suporte ao cotidiano, mas que me levou a certos perigos. E no retorno a este os poemas linearizaram caminho. Alguns o conhecem por Sarcantus, e vou nomear esta sensação de encontro, de fundação, assim, de Sarcantus.

Pode ser que dê um samba legal, que eu consiga por demais escrever um livro de poesias – não como as belas poesias dos mestres, ainda me são distantes – não nego que sempre o desejei. Das várias formas de arte literária, a mais difícil é esta, por sua condensação, por seu peso, por sua fluidez de muito em tão pouco trecho de rio. Queria ter a força de um Leminski, de um Drummond, de um José Paulo Paes, Mario Chamie. Demorará muito para eu chegar até lá – seria muita pretensão afirmar que conseguirei, sei bem que não – no entanto, esta tentativa de seguir em um caderno com uma tentativa está me sendo redentor. Espero que os citados deuses da poesia possam conduzir minhas mãos para caminhos mais concretos. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A queda do Sagat brasileiro

Não sou fã de lutas, artes marciais ou qualquer coisa que envolva a palavra guerra de maneira direta ou velada, apesar de meu nome ser uma referência a Marcis (ou deus Marte, deus da guerra). Saí do exército quando me vi diante de armas, elas me lembravam a infância que tive agaixado em função dos tiroteios da favela surgente em frente de onde morávamos. Muitos conhecem até as piadinhas infames que uso referentes à luta, pancadaria ou o que concerne a isso. O único gosto sobre luta vem dos vídeo-games que joguei no decorrer da adolescência, um em especial, o Street Fighter, me será eterno. E o que assisti ontem foi um final round entre um lutador que me lembrava Ryu – o que foi capaz de gerar uma cicatriz no peito de Sagat – e a queda do fantástico lutador de Muay Thai, dono de joelhadas e pernadas longas, inflamáveis e infalíveis. Não tanto mais.
                Anderson Silva é desses típicos heróis brasileiros, forjados na limitação, no impensável, na vitória que vem da batalha cotidiana a todo custo. Símbolos que surgiram há muito num romantismo de risos nacionais, criado no colonialismo de poucos recursos e muita força braçal, pois é isso que sobra para muitos brasileiros, a força braçal, pois educação é coisa para poucos e os que conseguem vencer pensando são nerds que internacionalizam sua capacidade para outra nação (e que depois não se veem como brasileiros). Anderson, Lula, Pelé, Neymar e muitos outros se criaram nessa mesma forma que hoje alimenta o ideário brasileiro e os instiga à vitória, movidos pelo “sou brasileiro e não desisto nunca”. No entanto, há neles também alguma demonstração de arrogância, algo que pode ser fruto de uma necessidade de diferenciação em relação ao verdadeiramente brasileiro, um humilde nato. E foi o que escutei sobre o nosso Sagat, um cara que instiga psicologicamente o adversário e em sua penúltima luta, este Ryu Weidman deferiu um certeiro que o bambeou e caiu, perdendo o cinturão. Agora, em uma revanche válida, midiática, explosiva e testoterônica, Sagat sofre de seu próprio veneno. Dever de casa do mocinho, que partiu para o próximo nível, o de escrever o seu nome na parte final dos créditos e no ideário negativo dos brasileiros.
                Em função de sua arrogância, parece que Anderson recebeu de vez a punição. Para os que não conhecem, Sagat faz parte do quarteto final de inimigos imbatíveis no jogo. Com ele se compõem o Balrog, o boxeador de Las Vegas; o Vega, o espanhol ágil e de garras afiadas e M.Bison, o mais forte, o último mesmo, líder de um cartel – possivelmente de drogas – na Tailândia, para quem Sagat diretamente trabalha. Quando jogávamos, não nos importávamos com os símbolos políticos, incomodava sim o fato de o brasileiro ser um monstro eletrizante, o Blanka, ignóbil, forte, fácil de ser derrotado, porém queríamos jogar. Sagat queria porque queria lutar. O repórter afirmava sobre a hegemonia brasileira no atual UFC, ou seja, os inimigos a serem batidos. Um close no brasileiro desafiante, Belfort, com cabelo espetado, uma cara desfigurada pelos anos de luta e se colocando como o próximo a ser confrontado. Em seus olhos também não havia a humildade nacional – Belfort não vem da pobreza, das limitações típicas de muitos brasileiros – ali ele era o Blanka, vociferando sua raiva, explodindo sua força midializada, alimentando as bolsas de apostas, o Panis et circensis de todo o sempre. O que enxerguei foi um vídeo-game de carniosso, tudo junto, misturado, transfigurado no medo da certeza da vitória do mais novo e do afoito senhor por seu cinto.
                A dor da comoção foi a dor do coletivo. Via-se um lutador de Muay Thai vendido, com golpes conhecidos, a hegemonia descamisada, descoberta. Do outro lado, um lutador pouco conhecido, mas sustentado no pedestal de um caminho de lutas PERFECT (na linguagem do jogo, impecável, sem derrotas). Os dois possuíam até olhares de certeza. E quando depois de um round, muitos socos, sangue, pancadas firmes e certeiras, sabia-se que a luta seria osso duro de roer.
                E roeu. Em um chute, que deu para se ver a concentração de um Special (golpe que deflagra muita força e que pode finalizar o inimigo), este virou contra o aplicador e Sagat cai, vítima de si mesmo, de sua vontade pela vitória o quanto antes. Ryu lhe trouxe a cicatriz na perna, e no peito, no ego ferido da ágil aranha abatida por si mesma. Todos ficamos sem sono, levantando incertezas sobre o futuro do nosso. A dor que assomava a todos vai levar muito tempo para cicatrizar.

                É no fundo uma péssima forma de terminar o ano de 2013. Um ano de levantes nacionais, mas que sabemos que vai levar muito tempo para caminhar com todos os seus pares e símbolos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O resultado militar de uma passeata

                Quinta-feira passada era o famoso dia 20 de junho de 2013, conhecido como dia da Passeata de um milhão de manifestantes. Havia uma felicidade coletiva, uma comoção pelas mudanças que tanto assolam a consciência brasileira, já cansada dos feitos de políticos salafrários. Até aí, nada de novo. Seria a primeira vez que eu participaria de um movimento que preza melhores condições para todos, nada de reinvindicações unilaterais, específicas. Os cartazes, plurais e aos montes, refletiam todas as angústias, a necessidade de representação e a descrença na atual democracia brasileira, falha, apática, permissiva e fajuta. Mas nós, os manifestantes, atolados de esperança e zonzos entre tantas primeiras vitórias – a queda do preço das tarifas e a mobilização para lá de bonita -, não vimos que caminhávamos ingenuamente para um campo de guerra.
                Munidos apenas de cartazes e muito grito – as musiquinhas pareciam estar guardadas há muito tempo nas gargantas descrentes -, os manifestantes, aos montes, principalmente famílias, em miúdos, pessoas que nunca foram, mas que queriam usar o exercício cívico para mostrar civismo e cidadania, lotavam as ruas do centro do Rio de Janeiro. Eu mesmo cheguei por volta de 16h30min, comprei a máscara do Guy Fawkes – V de Vingança – a vesti e fui me unindo ao grupo de insurgentes. Aos poucos, encontrei pessoas, alunos, companheiros de sala de aula, compatriotas no dever cívico por melhorias. Quando já mais próximo da prefeitura – nosso alvo principal – lá as musiquinhas ganharam mais força, os braços estavam mais altos e os pelos mais eriçados. Todos ríamos, pela sensação de mudança que encontrávamos estampada nos olhos e rostos e corpos e bandeiras. A comoção era viva. Os passos dos que chegavam tremulavam chão e bandeiras com mais força.  Até que começaram os ataques aos manifestantes.
                A Presidente Vargas estava toda tomada por barreiras fixas ao chão. Elas, num primeiro momento, servem para evitar que pessoas atravessem as ruas por baixo, longe das passarelas. No entanto, ali serviu como dique para evitar a dispersão bolheada dos manifestantes, para todos os lados. Só podíamos seguir para trás, retornando, encontrar-nos-íamos diretamente com aqueles que queriam chegar à Prefeitura. Passamos a correr, a colidir com todos. As nuvens das bombas de efeito moral foram tomando o ambiente. Gás lacrimogêneo, spray de pimenta e tiros de bala de borracha ampliavam a nossa angústia. Ali víamos a enrascada em que entramos. Algo genial dos agentes militares da opressão governamental, aproveitaram a oportunidade para traumatizar brasileiros de várias idades e gerações no que diz respeito à manifestação. Helicópteros da polícia militar em voo rasante, policiais do BOPE vinham pelas ruas paralelas, cercando os manifestantes. Enquanto que éramos todos apenas uns acuados, que passaram a se perder de seus companheiros, pois precisávamos nos salvar.
                Já mais a frente, os telefones não funcionavam, até possuíam sinal completo, mas só dava para passar mensagem. Outro detalhe genial da atuação militar, pois qualquer um consegue correr e telefonar, mas passar mensagem não. As estações do metrô – haja vista muitos manifestantes terem comprado passagem de ida e volta – estavam fechadas. Não conseguíamos acessar a internet, não sabíamos quais estavam abertas. Nós, que caminhamos para mostrar nossa intenção por um Brasil melhor, estávamos diante de nossa própria aniquilação. Eles tinham a faca e o queijo nas mãos para oprimir o movimento e sufocá-lo em sua raiz.
                Não devemos, porém, nos intimidar. Penso que há formas de atuar nas ruas, nas manifestações, sem que estejamos vendidos, cercados em nossa necessidade de grandeza. Para os já acostumados, por favor, direcionem-nos, não queremos perder a energia que nos move, mas, inclusive, não precisamos ficar vendidos no meio de nossa atuação. O movimento é bonito demais para se perder diante do aparelhamento governamental contra aqueles que a bancam, contra nós, os manifestantes.

                

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O preço de um medo

                Jabor, arregão, conhecido por sua veia explosiva e, às vezes, afoita, deu mais uma demonstração de que elites opulentas costumam julgar massas ditas inferiores e tachá-las a bel maneira que querem. Sei que o exercício de humildade – como disse, exercício -, atrelado a uma percepção mais concreta do que de fato aconteceu, pode arrefecer um pouco os ânimos em relação a sua pessoa. Mas a sua ação não deixa de ser um exemplo de vários que, no topo de suas efígies, estão sentindo o chão tremer com a marcha dos indignados.
                Poucos foram os políticos que até agora apareceram para dar alguma satisfação. A nossa Presidenta Dilma legitimou o movimento, até como lembrança histórica de sua atuação, mas amedrontada, pois no seu cursinho de vestibular para presidente não lhe deram a disciplina “como lidar com as massas opressoras”, ela se encontra acuada, como todos.
                No entanto, o medo dos políticos ainda não se concretizou essencialmente. Agressões como diminuição de salário dos professores e aprovação da “cura gay” aparecem como exemplos da pompa substancial que ainda possuem. Para estes, sim, sou a favor do impeachment, da deposição. As razões deles podem até soar como válidas, mas serão naturalmente escusas. Devemos reprimi-los nas urnas. O poder do voto se torna onipotente e onipresente neste momento.
                Sabíamos há tempos que uma explosão popular iria se deflagrar mais cedo ou mais tarde. Eu particularmente achava que viria para a geração de minha filha, hoje com seis anos, que não entende o levante barulhento e o sorriso bobo e utópico do pai e da mãe. O que minha geração cantou em letras adolescentes e virulentas, esta geração faz questão de colocar em prática. Não foi medo nosso, nós ainda éramos comandados na implicitude. A atual tem total poder de anonymato e capacidade de exposição ao mesmo tempo. A internet, uma vez transformada como mais um instrumento de alienação e exposição do indivíduo, se tornou o principal instrumento de manifestação e movimento. O feitiço se torna contra os feiticeiros das siglas democráticas.
                O medo das elites opulentas, agora oprimidas, cresce em sua essência, pois a origem de controle e comando do Brasil – os políticos – está encurralada entre a fonte financeira destas elites financiadoras e o clamor público. A sua principal forma de sustento – a política – agora será usada como arena de sobrevivência. Os marcados serão aos poucos jogados aos leões, os que sobrarem serão sabatinados. A carnificina está sendo montada.
                Não vejo, no entanto, a necessidade de se criar novos partidos políticos. Por estarmos vivendo um movimento apartidário, sem lideranças explícitas, algo que traduz a descrença na política atual como um todo, a busca por criar um novo partido traria, sim, muitas adesões, mas no ato democrático, há a necessidade de se criar uma oposição. Quem se oporia a esta força? Os partidos remanescentes? Os dados de uma nova realidade estão lançados. Penso que podemos aproveitar aqueles que estejam disponíveis à conversação, que não detenham excessos ou bandeiras anacrônicas.

                Sei que cenas posteriores podem mudar também a minha opinião. Me reservo à condição de observador que até pode ter uma consciência afoita, atolada de sorrisos e angústias, mas que não vai julgar à luz de preconceitos primevos. Por sorte, não sou um ex-guerrilheiro em trajes globais, que vocifera a agonia dos julgados incapazes. A sorte está do lado de todos. O clamor público não. E no final das contas, quem dita as regras? 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Terapêuticas a mais


Há tempos escrevo um modelo de texto que me serve para extravasar. É a esse modelo que declaro chamar de Terapêuticas. Preciso dizer que funcionam, não somente como terapia barata – não frequento psicólogos e psiquiatras, mas bem que deveria. O texto é bem mais barato, e julgo que resolve bastante. Semana passada, logo depois do início do ano novo, escrevi um texto declarando a minha nulidade. Depois de muitas frustrações artísticas – sabe aquela coisa de que a pessoa tem que se tornar artista, esse cara sou eu – julguei que nunca mais conseguiria ser escritor. Foi a única que não deixou tão às claras as minhas limitações. Mas depois de perceber que nunca conseguiria ajeitar a minha vida para poder passar escrevendo pelo menos que fosse uma página por dia resolvi colocar essa minha vontade na caixinha das frustrações e esquecê-la por lá. Dias depois, estou aqui diante de mais um Terapêuticas.  
            Não vou conseguir me ver longe da literatura. Não somente como leitor, eu preciso produzir. Escrever não é somente uma forma de estar no mundo, mas de suportá-lo. Não somente de produzir o Terapêuticas, mas sim de produzir algo. Gosto do meu trabalho, gosto da minha condição de casado – adoro, na verdade – minha condição de pai me traz uma valorização do ato masculino que me deixa muito feliz, mas tudo se contrastava com essa vontade de produzir literatura, que requer silêncio, solidão e contemplação. E nesta, principalmente, é que o crônico que gera a crônica se faz capaz de existir. Há algum tempo escrevi que a crônica não vem da cronologia somente, do ato com o cotidiano, mas sim com o crônico, com aquilo que é extremo, principalmente do incômodo. É o que me acontece agora, neste exato momento, a destilar um texto a partir daquilo que mais me incomoda: a vontade de pelo menos não ser vencido.
            Eu até tinha entregado os pontos. Não queria mais escrever por não poder atender a esses requisitos básicos que julgo serem necessários para a produção. Não nego que o silêncio é do qual menos dependo – para aqueles que são pais talvez consigam me entender -, porém o ato de estar sozinho e principalmente contemplativo não consigo abrir a mão. A agonia de ter escrito aquela última crônica, dizendo que apenas mostraria coisas que já foram escritas – sim, coisas – eu volto ao texto – e ao prompt do programa de digitação – conseguindo escrever algumas palavras.
            Amo-te, Terapêuticas, este modelo de texto em que me residi nos últimos anos. Basicamente as crônicas têm vindo desta fonte. Tenho saudades de escrever aquelas que eu considerava o meu modelo de crônica, o particular que partia para o total, abrindo as vezes para uma visão de mundo, não indutivo, diga-se de passagem, mas particular. Seria muita petulância de minha parte achar que posso induzir alguém a algo, nem muito menos quero, mas sei que quem lê se abre à indução ou a percepção do que está sendo lido.
            Tenho o prazer de ser lido, de discutir ideias que partem de meus textos – petulância, sei –, por isso afirmo claramente que aqueles que leram a minha última crônica, por favor a desconsiderem. E aqueles que me ligaram dizendo que eu faria uma burrada, digo, vou acreditar na mentira que me declaram. Muito obrigado. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dia do Consciência Negra


"Essa é para todos os meus amigos, que como eu, somos pretos-brancos-pardos-amarelos-esbranquiçados-pretos palmitos-brancos enegrecidos-amarelos mamelucos e todas as outras etnias que só existem na cabeça dos outros, no daltônico inconsciente, no incapaz e premente. A todos nós também que somos religiosos ateístas, evangélicos do candomblé, cristãos kardecistas, umbandistas de Jesus Cristo dos últimos dias, hindus de Alá, católicos do axé e todas as outras consciências religiosas que no fundo se fundem na primazia do respeito ao próximo. Somos um! Sobre a égide do Um ou dos Vários! Hoje é dia de celebração ao respeito, ao que podemos escolher para nós mesmos, um dia de exercício à liberdade e a aceitar sem questionar as escolhas do outros! FELIZ DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA! FELIZ DIA DA CONSCIÊNCIA AO QUE É UM."

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Crônica para daqui a dez anos.


                “É uma pena ver o declínio das vendas dos livros físicos em detrimento da migração dos leitores para as novas tecnologias. É uma pena mesmo. Uma vez mais a máquina substituindo o sensorial, o prazer, e trocando-o pela frieza que brilha e encanta os olhos, mas não mais o resto. Uma obra nesses aparelhinhos é um livro sem gosto, sem sabor, sem a luta pela manutenção do livro aberto. Não ter o prazer do volume em suas mãos, lutando com todas aquelas páginas que te encaram, que te exigem destreza, parece o fim. Nunca que um livro físico vai ser superado por essas maquininhas. Os livros que uma vez pertenceram ao meu avô, que hoje compõem a biblioteca usufruída por minha filha, continuam os mesmos, apenas protegidos das traças e do envelhecimento cadente do papel. Não precisaram passar por atualização de software, antivírus, migração para nova tecnologia ou qualquer coisa que alguém julgue ser melhor do que o papel em essência”.
                “Mas não serei leviano, sei que mais cedo ou mais tarde o livro físico seria vencido de vez. E desabafo aqui, pois fui criado num ambiente cheio de volumes e mais volumes. E ver as livrarias minguantes de estantes, lotadas de telas sensíveis ao homem, mas insensíveis ao prazer da descoberta pelo toque, faz-me crer que não precisaremos mais do tato ou do olfato em um breve período de tempo. E ler – isso ainda não nos tiraram – que as gráficas hoje se reduziram drasticamente, imprimindo por demanda, que cada vez mais minguados também estão os pedidos, o livro – essencial, não a obra – volta a ser um artigo de luxo como o era na Idade Média ou até meados do século XIX, antes da invasão da revolução industrial no meio artístico. Logo as bibliotecas terão que mudar de nome, não mais acervo de livros da genialidade humana, mas Museu de um passado de publicações, Sala da Obra Impressa, O resquício da papel, ou o que mais puder traduzir sua decadência. Virão os ecologistas afirmarem a importância do paradigma vencido, historiadores que remeterão à Biblioteca de Alenxadria – se assim fosse no passado, a tecnologia teria preservado aquele conteúdo dito fantástico. Aí escrevo, o quanto de luz está sendo gasta só para manterem esses servidores abarrotados, tudo bem, fonte renovável, mas prazer que é prazer não se renova, cria lembrança. E quanto à biblioteca de Alexandria não nego, não tenho muito a dizer, também gostaria de ler o que lá publicaram. O papel, porém, precisou uma única vez de energia para ser produzido e a facilidade de seu retorno à natureza quando de sua degradação não tem precedentes. O que fizeram com os servidores antigos quando criaram os novos? Ao mesmo tempo, será que eu teria tempo de ler todo aquele universo de texto que havia na biblioteca de Alexandria? Se não o tenho hoje, vírgula, prefiro parar por aqui o raciocínio”
                “O que me incomoda mesmo é o individualismo em sua máxima plenitude. Depois de as redes sociais terem obtido o êxito de extinguir o particular, tanto da conversa ao vivo, tête-à-tête, quanto da privacidade, do barzinho, agora também o conseguem evitando que uma quantidade de leitores consiga usufruir de um mesmo livro. Se compro a obra para o aparelho X, não posso enviá-la para o aparelho Y, pois é bloqueado, não permitido pelo detentor dos direitos autorais e os escambau. Caramba, se eu comprei o livro, eu não quero reescrevê-lo, mas quero discuti-lo com a minha esposa por exemplo. Só que não posso emprestar o meu tablet pra ela, pois com ele trabalho. O livro, que ela poderia dispor sem precisar carregá-lo na tomada – só na bolsa – está restrito ao meu aparelho, não mais do que nele. Não posso enviá-la por qualquer recurso de troca, também. Ao mesmo tempo, uma mesma obra tem diferentes formas para diferentes plataformas. O que é essa nova publicação de Harry Potter, que possui diferentes grafismos para Ipad 12 e 13, mas não é visto da mesma maneira para o Android New Maker 7.0? Uma mesma obra pode ter várias edições, revisões feitas pelo autor, mas diferentes tratamentos? Isso é preconceito. Isso é marginalização. E só um tipo de consumidor é que pode ter acesso a um novo modelo de obra? Na minha época havia as edições de luxo, mas não significava que era outra obra, ela era a mesma, só que com outra preocupação”.
                “Cataclísmico que possa parecer – para mim o é – lembro-me das páginas da Revista Galileu que saiu em Agosto de 2012, falando sobre estantes mutantes, livros com outras formas além da tradicional – livros de papel com led, que isso?! – e mais outras formas diversas que transformaram o tradicional em algo adaptado. O novo, às vezes, quando vem, só faz é trazer dor de cabeça. Tanto por causa de inovações bobas, quanto por excesso de luzes onde se faz melhor o lusco-fusco de sempre”.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Questionável

Hoje
a coisa tá estranha
muito
segui-me ao teclado
e ele, louco
me pediu
deixa comigo
E eu deixei
Em uma hora
assentaram-se sessenta ideias

Dessas sessenta ideias
algumas brotaram
germinaram
Aí estou
Idealizando poemas
Como reduto reduzido de grandices

Mas o que faço
nesse pois então de ideias
se não deixá-las parir sozinhas
inerentes a mim
mas e nem aí para mim

Sou um escravo 
a procura de trabalho não remunerado
deixando a discrição
por descrição
nesse ato falho de escrever
o pouco que valho.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Por uma nova coleção


                Em minha mente, cheguei ao fim de Colecionador de Lágrimas, meu primeiro romance. Debutando com esse novo amor, tal qual um óbvio adolescente em totais descobertas, posso dizer que estou ao passo da realização. Mas por que ela não me é completa? Talvez por ser o primeiro.
                Como um produto de dois anos de trabalho eu estou muito realizado. Feliz mesmo. Não me lembro bem quando se deu a derradeira escolha por palavras. Abdicar do desenho, deixar que o tracejado fugisse de meus dedos e passar somente a desenhar palavras – no fundo, a desenhar com palavras – não posso precisar quando me houve. Só posso dizer que três fatores preponderantes: Ana Maria Machado, Chico Torres e Iron Maiden.
                Se há uma obra relevante na minha vida é Raul da Ferrugem Azul. Primeiro pelo aspecto imagético, um garoto estar tomado e ter uma ferrugem que só é vista por ele e esta rima. A rima, o som, a imagem, tudo era desenhar com palavras. Mas não saí substituindo o desenho. Até os meus dezoito anos eu desenhada todo santo dia. Nada belo, serei sincero, mas desenhava. Perfis humanos, o contorno das mãos, punhos fechados, olhos a desenhar personalidade. Com o tempo foi a poesia, mas muito pouco, diga-se de passagem, mas a houve. No Ensino Médio o gosto pela música e aí que houve o pulo do gato. Passava o dia inteiro escutando música, estudando e desenhando. Do universo Rock veio a primeira namorada; casava bem com o ritmo, personificava o metal. Pelo meu gosto à Língua Inglesa, coisa dos meus sete anos, isso lembro bem, passei a estudar letras. Mas o que eram aquelas capas do Iron, o que eram? Aquele universo sombrio, questionador de letras pulsantes, temáticas, exatas e enxutas? Foi demais para mim. Paixão eterna. Este, sim, o primeiro amor.
                Aí bati de frente com o talento vivo, enorme. No Ensino Médio mesmo conheci esse cara: Chico Torres. Introspectivo, mas com dedos soltos. Uma figura sombria, escondido atrás dos cabelos. Mesmo gosto por Rock foi a aproximação. Um dia em sua casa ele fala, Escuta essa, era ele e uma guitarra. Aí entendi o porquê de sua mão ser tão volumosa em um corpo tão magro. A sua forma de tocar guitarra, a sua simbiose era perfeita.  Eram perfeitos. Não tive como não admirá-lo. Como o faço até hoje, mesmo em nossa distância.
                Neste momento em que me surge um contraste. Tanto Ana Maria Machado, quanto Iron Maiden eram talentos distantes. Na minha família os talentosos eram os que tinham um dom e por isso inalcançáveis. Eu tinha apenas uma capacidade, uma bem leve. A amizade com Chico foi fundamental para sacramentar uma convicção, que a perseverança é a síntese de alguém que consegue. Além disso, montamos uma banda juntos, eu e ele. O nome: Death Style. Era boa, por causa dele, deixe-se isso bem claro. Porém, ali compúnhamos. Letras em inglês, uma ou outra em Português, e escrevíamos o dia inteiro. Ele me mostrou outras dele, de uma banda antes. Ótimas, “ Down in the dephts / of my angry soul / I can hear the Bells of destruction”, digo, canto-as até hoje. Quase todas. Ali descobri palavras.
                Dois outros fatores: conhecer Wagner Martins e Rômulo. O primeiro pelo seu sarcasmo, uma acidez irremediável e de uma inteligência fora de série. Nós todos estudávamos, Wagner produzia raciocínio. Ele era muito para nós, a inteligência em forma física.  Conhecê-lo foi um duplo agrado, primeiro por me colocar no lugar. Era o cara que me zoava. Na época eu não entendia, hoje sim. Também por me dizer um dia, Calixto, você é um talento sem criatividade. Não entendo isso, um cara com talento, mas sem criatividade. Nunca soube como agradecê-lo. Rômulo, pois me chamou para Ace Comics. Eu desenhava, Chico e eu escrevíamos. Quem me conhece sabe da importância e desimportância de Sarcantus.
                Agora, o Colecionador de Lágrimas.
                Tê-lo prontinho, apenas necessitando de digitação final é algo reconfortante. Já fiz aquela leitura de corte, a de adaptação, a de enxerto, de novo corte. Falta digitar. Os papéis estão amontoados. Preciso organizá-los, mas vê-lo, o livro, é tão bom. Não sei qual vai ser a receptividade. Não sei. Se será boa, se serei execrado, tudo são possibilidades. Não nego que estou em uma fase de agradar gregos e troianos. Estarei mentindo se dissesse o contrário. Gostaria sim de que todos que o lessem me dissessem gostar muito. De que cada um me viesse apontar um detalhe de belo da obra. Sabe aquela história de escrever um texto que mudasse as pessoas... pois bem, sei que não a consegui. Só modifiquei a mim mesmo. Tenho um romance escrito. Não mais do que.
                Junto-me ao Hall dos meus amigos talentosos. Não posso, porém, exigir uma cadeira nesse panteão, nem sentar ao lado deles. Posso estar na mesma sala, ver um Ulisses Mattos, um Wagner Martins, um Chico Torres, vê-los em suas excelências, em seus esplendores. O que falta mesmo, nesse momento, é coisa bem simples: continuar a coleção. Escrever. Sinto-me completo assim. E ao mesmo tempo agradecido.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Carnaval


            Vi-me surpreendido pela pergunta de Fernanda Lima em seu programa Amor & Sexo sobre o carnaval, ou os carnavais, que mais trouxe lembranças. A pergunta, em sua imposição, era direta em retratar lembranças picantes, paixões de carnaval, aquelas coisas que só pensamos em fazer nele, por ser inerente à época. Mas aí, uma das entrevistadas foi direto em suas lembranças de criança, quando o carnaval era só fantasia e mais nada.
            Ao pensar nesses carnavais, direcionadamente me lembrei dos de dezenove anos até os meus vinte e um anos. Carnavais sem freio, sem medida, alguns excessos declarados, bons carnavais. Surpreso com a resposta, revi minha filha nas lembranças, e principalmente, ela fantasiada de abelhinha. Era um carnaval simples, ela com um aninho de idade, bem rechonchudinha, fomos ao Norte Shopping, nossa família, a de meu afilhado, todos lindos. O carnaval ali era das crianças. Os pais estavam fantasiados de pais, eles serviam de cabide para tantas bolsas infantis, elas segurando as mãozinhas daquelas crianças todas, dançando, andando na velocidade de todos os nenéns. Uma coisa muito gostosa de se ver.
            Eu que fui criado para ser machista, eu que fui treinado para ver mulheres como apetrecho ao prazer, senti um gosto especial por aquele tipo de carnaval. E entender que este não é para ficar tocando o limite do próprio corpo, bebendo em excesso, evitando dormir, beijar até não mais poder e fazer sexo com o máximo de pessoas que puder. Entendo que isso seja inerente ao carnaval, que a padronização das festas que vemos hoje vai perpetuar essa visão também para o universo feminino, com a coisificação do sexo, com transformação do homem em objeto, mas apenas enxergar a festa como festa, rir pelo ato de dançar, pular com a minha filha no colo, com o meu sobrinho, com um número ainda maior de crianças, foi mais gostoso do que pude imaginar.
            E aí vem o detalhe que acho maravilhoso. Poder redescobrir coisas e ver que elas podem ser muito mais do que foi padronizado, ah, isso sempre para mim será a glória. Sair do estipulado e ver o íntimo das coisas, para mim é a própria vida. E agora, Carnaval para mim é isso, fantasia nas crianças, pular na felicidade delas e vê-las rindo. O carnaval é divino.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Momento "jabá"



Caros amigos, leitores, colaboradores, simpatizantes e afins...

Uso nosso querido blog para divulgar um curso que eu e um amigo da Fiocruz estamos organizando no Instituto Pretos Novos (Gamboa, Centro do Rio). Nosso público alvo são professores de História e demais "humanidades"; jornalistas e qualquer outro interessado em saber mais acerca de nosso passado escravista.

Conto com o interesse de vocês e ">principalmente com a ajuda para divulgar (Facebook, outros blogs associados a História e/ou educação...)

Desde já agradeço. Com um abraço, Dé.

domingo, 27 de novembro de 2011

A opressão dos comentários.


  Está aí a ditadura da era moderna. Aquela que é comandada pelas forças invisíveis dos novos valores sociais, organizacionais, da nova maneira de se dispor no mundo. E para aquele que tem um blog, um site, ou qualquer outra forma de exposição ao mundo virtual, lá está ele como um link demoníaco que faz sofrer, oprimir, questionar, medir, avaliar, enfim, deixar exposto, ou como um troféu social, ou como um maldito declarante de inutilidade.
   Esse é o papel dos comentários. Quem se expõe à rede sabe do que estou falando. Uma das formas mais fáceis de medir a qualidade do que demonstra é através deles. Os comentários estão aí como uma forma de medição, de percepção, como um ibope velado e maldito do que você coloca por aí. E é horrível ficar à expectativa de que algum apareça, de que lá embaixo o que está em Zero, chegue a pelo menos Um, Dois, ou quem sabe, Doze. Para blogs comuns, sem grandes apelos e com público restrito como este em que escrevo, chegar a sete comentários já é a glória, passar de uma dezena é o sucesso inimaginável. Impensável é um dia chegar a trinta, quarenta, ou até uma centena como acontece com os sites de grande popularidade. Mas se medir pela quantidade de acesso e dividir pela quantidade de comentários, verá que quanto maior o sucesso, menor é o retorno, em porcentuais.
   Durante muito tempo eu me mentia. Dizia que o que publicava apenas não era digno de comentário, que poucos ou até mesmo nenhum iria se dispor às vezes a comentar, ficaria no anonimato da opinião, não esganiçaria uma possibilidade de conversação, de conselho, não só de retorno, mas de um bom bate papo. Esse é o papel dos comentários que vejo acontecer nesse blog. Além de virem de pessoas próximas, não vêm só pra elogiar ou criticar, mas sim para ampliar, aumentar o que está exposto. Em sites de grande retorno, os comentários – ou melhor, o seu espaço – são destinados a elogios ou autopromoções, gente que faz propaganda de si mesma ou de seus preconceitos. Graças a Deus, essas pessoas aqui não vêm. Mas não vou mais mentir, é tão bom quando se vê apenas um só, um que seja, ali embaixo, como um troféu de consolo ou como o troféu, campeonato entre Eu, Eu Mesmo e Irene, e mais ninguém, aquela rusga de si contra si, esperando resultado positivo.
  No intuito de medir, uma vez, usei do discurso do professor desmotivado e criei um poema extremamente violento em homenagem ao dia dos professores. Joguei-o aqui no site, na minha coluna do Trema e no Recanto das Letras. Aliás, como é fácil encontrar egocentrismos em pedestal de gesso neste site.  Não nego que o poema não traduz a minha constância com o universo da sala de aula, não me ponho como um frustrado que se vê incapacitado de dar aula, por causa do marasmo e da inanição intelectual dos meus alunos. Não nego, também, que dar aula no município me requer um esforço dobrado, primeiro para contê-los – algo que nunca imaginei passar em sala de aula – e segundo para conseguir dar a aula, mostrar que o conhecimento é válido, tal tal tal. Aqui, por ter um público de origem religiosa, sei que choquei. No Trema, os comentários foram para lá de efusivos; no Recanto, alguns até se dispuseram a ler, outros a rezar por mim, ou seja, a fonte do público leu da maneira que bem entendesse, Mas em nenhum em cheguei ao resultado que esperava.
  Porém, dizer-me que não me ponho atrás de que um comentário venha, é pura mentira minha. Seria até leviano, mesquinho, me colocar num pedestal qualquer dizendo que não me contorço quando não vem e fico à espreita da espera. Acho que todos são assim. Estou, por fim, à espera do que vocês pensam. Está aberta a temporada de observação da quantidade de comentários que esse texto vai surtir. Vamos ver! Beijos a todos. 

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