Mostrando postagens com marcador CONTO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONTO. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ÍNDICES DE DESCULPAS

Naquele momento não pensei em mais nada, e assim inicia-se esta história, pelo motivo incentivador de uma reflexão sobre o que me espera. As palavras já estavam ditas e nada poderia revertê-las. Nessa estrada não havia retorno. Quando elas estão guardadas são nossas escravas e podemos fazer delas o que quisermos, mas, quando são lançadas ao ar, nós somos rebaixados à escravidão e elas podem ser senhoras muito cruéis quando, ao serem elaboradas, burlam a etapa na qual o cérebro trabalha. 

Os sentimentos se embaralhavam e o meu peito diminuiu dois terços de seu tamanho, pois senti meu coração apertado, sufocado. Não porque estava com remorso, mas porque eu soube, naquele instante, que uma ferida havia sido aberta por mim, devido à minha irredutibilidade, à minha dificuldade em ouvir, à minha dificuldade em aceitar, à minha dificuldade em entender e à minha mania de achar que tudo pode se resolver em berros, que dessa forma serei ouvido. Aquilo que havia me transtornado já nem importava mais, pois a necessidade de estar certo levou-me a desvirtuar o assunto e a atribuir culpa a gestos completamente irrelevantes. Por isso comecei a falar, e falei até não dizer mais nada. Mesmo assim continuei falando. Mas já estava dito e eu era completamente incapaz de voltar atrás, de dizer que o que saiu da minha boca estava errado. Ou simplesmente não dizer mais nada e apenas desculpar-me. Não fui capaz.

Nada mais me deteria. Mesmo com aquela vontade louca de, simplesmente, abraçá-la fortemente, como se nada ao redor existisse e ela pudesse sentir que nos meus braços ela estaria segura, dizê-la o quanto eu a amo e beijá-la intensamente para mostrar o que realmente estava dentro de mim, nada foi feito. Eu me virei, simplesmente me virei e caminhei. Minutos se tornaram horas até o meu destino, pois eu sabia que, quando eu ouvisse sua voz novamente, algo estaria diferente, fora de seu eixo natural, como a Terra depois de um terremoto de escala máxima, provocado por palavras. A partir de então, um sentimento começou a ganhar a briga dentro de mim: a tristeza. Cruel tristeza! Lembrei-me de seu olhar. Aquele olhar desesperador. Por aquela janela pude ver que a alma dela estava despedaçada, e a rara falta de brilho neles trazia à superfície o estado em que eu a havia deixado. Lembrança aterrorizante.

Tentei desfazer, tentei justificar-me mais tarde, tentei tudo o que eu pude, mas nada me restava senão mostrar o resquício de humanidade que ainda estava em mim e fazer associações de símbolos fonéticos para criar signos que me levassem à remissão. Mas eu sei que palavras, mesmo que profundas e eloquentes, não resolveriam o vazio que senti por ter proporcionado a ela tristeza e ter feito as lágrimas escorrerem de seus olhos, pois seu coração sangrava. Sei, porém que é muito maior o que me espera, e mesmo que promessas pareçam suficientes, ainda serão pouco frente à vontade que tenho de guardá-la para sempre em mim. Minhas atitudes definem quem eu sou, e por ela quererei sempre ser o melhor que posso. Por isso minhas desculpas nunca serão completas. Mas já é um início.

sábado, 25 de junho de 2011

Pra não cair no esquecimento

Parou o carro, foi até a margem da ponte e saltou. Fez questão, antes, de ligar o pisca-alerta, parar um pouquinho depois da câmera, subir no parapeito e o resto é história. Conseguiu, porém, nas lentidões necessárias de um salto, mandar mensagem para cada um de seus amados. Com o celular em mãos, deu um tchau para a câmera. Ali se fez passado.

“Tá sendo ótimo pular, seguir ao nada, sentir a proximidade da morte. Todos sabem que nunca tive medo dela, que me fascinava, queria conhecê-la. Depois de agora, de tudo que me aconteceu, por que não morrer? Mando essa mensagem para todos vocês. Bem capaz de quando ela chegar, eu já estarei no fundo do mar, navegando, dormindo nas profundezas do último Morfeu. Só tenho a dizer que amo a todos. Invariavelmente. Me jogo, pois me sinto completo. Me mato, pois de mais nada eu preciso. Tive vocês tão próximos, em todos os momentos. Agora, preciso só da lembrança. Gostaria de que um dia tentassem o mesmo que eu, é belo. É lindo. Não é o mesmo que andar de moto. Nem chega perto da sensação de pular de para-quedas. É ótimo ter a sensação da certeza. A aproximação da água assusta um pouco. Mas o prazer de um novo nascimento é indescritível. Espero encontrá-los mais cedo ou mais tarde. Espero até que mais cedo do que tarde. Torço por todos. Um beijo. M...”

    E muitos ainda esperam encontrar-lhe o corpo, sumido no mergulho desta incauta liberdade. 

sábado, 18 de junho de 2011

Carta ao Homem de Opinião Volátil

O dia de um mais tudo, não no mundo mais quanto, e o quanto de ti tu foi a mim, meu pai. Meu reflexo de exemplo e na mais pura aurora, caminho pra um necessitado. És a fome e a raiva, a pureza e a podridão, naquilo que é tão tudo e ao mesmo tempo tão nada. Havia anos em que pensava escrever algo para ti. Assim tão direcionado e tão diretamente óbvio. Esta não é uma parte recife da escolha de palavras para compor capítulo mero de estória mais ampla. Isto aqui é recife seu. E sua é um tanto quanto de mais a ti que lhe escorre no mundo a culpa dos erros alheios. Tornaste homem martírio, sibilo martírio, de algo que acha ser bonito: aceitar a culpa, que não se vê, como maneira de manter pilar de família. Mas quando os muros que perseguiste vir em pé são apenas pó, é hora de perguntar ao que meramente é.


     Ainda não percebeste o quanto é mutante de tanto. Na tentativa de se esquivar de críticas, tornou-se um poço de sorrisos. Mas sua profundidade é tão curta que fica instável qualquer confiança depositada. E se sua seria sabida a palavra mal dividida, não é em ti que irei me espelhar pra compor-me homem. Sei o quanto um dia será difícil ler isso, mas quando me encontrar nessas palavras, talvez seja tarde a mim minha vinda. Sou venda, apenas olho diante demais. E com a faixa mais escura que pude encontrar, para não ver o quanto da tua carne se esfacela na dúbia aurora que te surge ao acordar, distante diante, um segundo tanto intocável. 
     Desnecessário é se criar uma redoma. O vidraceiro, quando a cria, usa do próprio sopro, da própria capacidade de respiração. Para se compor perfeita redoma, é necessário, de uma só vez, exaurir o pulmão, achando ter apenas uma chance para se criar a mais perfeita de todas. Mas naquela em que estou, como vidraceiro, eu me encontro soprando, suplantando ar em vez de choro, que me viria convulsivo e intempestivo. A cada respiração, meu ambiente de escolha vai se alargando, tornando-se a mais imperfeita forma oblonga, lisa, ininterrupta, e de vidro cada dia mais grosso. Por onde tocar, vai sentir a grossura blindada da massa vítrea, fazendo-o refletir que a escolha que fizeste não era das melhores a melhor, mas neste seu grau de inversão de culpa, enterra-se no desfalque da própria grandiosidade. 
     E nesse nosso não mundo, eu queria que mais da sua sombra crescesse por aqui. O problema, porém, se reside nessa sua maneira de encarar a realidade, algo que bem aprendi contigo, ao se enterrar de trabalho para não ver o óbvio. Também como a ti, trabalho muito, querendo escapar do tão óbvio desfalque que nos há. Hoje se há vida, há tristeza. Tornou-se balança, querendo equilibrar, quando o peso que corre para longe está buscando penas bem maiores.
     Mas da estrutura oblonga, nem tudo pode ser tão ríspido, pois sempre se dota o mundo com esperança. E foi por causa dessa senhora de verdes proporções que deixei a redoma enfraquecida. Lá no topo, consciência ,moleira da criança, a redoma racha fácil. E parece que lá se espera que tudo se redobre, se retome, se refaça, pois não há parágrafos no mundo que conseguirão suplantar o excesso de saudade que me há dos velhos tempos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tic Tac


                Tempo. No relógio o tempo avança. Devagar. Lentamente. Os minutos insistem em não passar. Sem falar nas horas, que parecem regredir a cada súplica de avanço.
                Na parede o tic tac soa forte. Firme. Como se estivesse lutando com alguém. É aí que eu paro e concluo, e está. Somos inimigos do infernal barulho que ouvimos sempre, seja no relógio de parede ou de pulso. Parece que eles estão ali para contar quanto tempo temos para viver, quantas horas precisamos para sermos felizes.
                Fundamental e doloroso, a vida passa e o relógio marca, cronometra. Os momentos mais incríveis da minha vida estava olhando para um relógio, e percebi o quão devagar o ponteiro se move. Guardei três minutos que o tiquetaquear do meu relógio de pulso soaram como horas, horas refletindo sobre mim, sobre quem eu sou. E se um dia tive medo de apertar o "avançar" e viver a vida, hoje vejo que o "pausar" não me é possível, mas que aproveitar o momento é como se estivesse olhando para aquele relógio, pois aprendi a ser quem eu sou no tempo que me é dado.
                Não sou fã do relógio, uso o meu, é necessário. Mas as horas passam, e a minha vai chegar um dia, com ou sem ponteiros por perto. Então, cada segundo a menos representa uma alegria a mais em minha vida, e assim vou vivendo, sem o compromisso de viver em um tempo imposto, pois na minha vida eu sou o meu relógio.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Apenas palavras, pequenas

Já era tarde, estava o dia todo pensando em como diria isso para ele. Percebi que nada que fiz naquelas horas tinham servido para chegar em alguma conclusão. Desligada do mundo, não lembrava do que tinha feito, onde estava e porque estava assim.
Sentia minha respiração pesada, como alguém que precisa de um pouco de ar para não sufocar. Meu coração acelerava a cada minuto a ponto de sentí-lo sem colocar a mão em meu peito. Meu corpo precisava aliviar, estava tensa.
Queria ouvir palavras, apenas palavras, que me confortassem. Sabia que não ouviria, e não ouvi. Mas os gestos me disseram algo que não eram o que eles realmente queriam dizer. Fantasias existem em mim, e mais uma vez elas falaram mais alto que a razão, mais uma vez!
Agitação, inconstância, desconfiança, alegrias, tristesas. Aprendi a conviver com tudo isso por ser frágil e talvez confiar demais. Olhando o que estava acontecendo, aprendi a perceber as intenções de cada um. A ingenuidade que tomava conta de mim foi morta, um pouco com cada um que entrou em minha vida. Pessoas que cruzaram meu caminho e deixaram rastros que me fazem entender que se queremos viver corretamente, não é preciso apenas arriscar, é preciso ter certeza. E isso é tudo o que eu não tenho, ou talvez nao queria ter agora.

sábado, 1 de janeiro de 2011

UM ANO DE NOVO

Em algum lugar do mundo no dia primeiro de Janeiro de 2011:
— Cara, chega! Tô cansado dessas promessas de início de ano porque nunca se concretizam e a sua vida permanece no mesmo marasmo, na inércia de um movimento que pode te levar às nuvens, mas que não se inicia. Ou não é iniciado.
— Mas cara, essas promessas são a nossa única esperança de mudança. Se nós não as tivéssemos, que expectativa teríamos para as nossas vidas no ano que se inicia? Essas promessas são necessárias.
— A vida não é feita de promessas, mas de realizações. Os grandes personagens da história são notados por terem feito alguma coisa e não por terem prometido. Esse ano eu não quero fazer promessas. Eu só quero ter coragem de buscar meus sonhos e tomar atitudes ao invés de esperar por mais promessas que eu sei que não se materializarão. A única promessa que eu faço é ter coragem.  
 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Hexacampeão

Tarde de quarta-feira, céu azul, sol escaldante das duas da tarde e... estávamos trabalhando. Eu e um grupo de amigos tínhamos que apresentar os resultados das nossas pesquisas em um local público, de fácil acesso a qualquer cidadão. Não era uma tarefa difícil, mas, à medida que montávamos a exposição, o calor nos incomodava mais.
Assim que conseguimos um tempo para conversar, chegamos à conclusão que todos precisavam de uma cerveja gelada para acalmar os ânimos – não que fôssemos alcoólatras, mas éramos estudantes. Procuramos a padaria mais próxima e discutimos um pouco, até decidir qual marca comprar. Assim que chegamos a uma conclusão – mais individual do que coletiva, visto que cada um escolheu uma cerveja de marca diferente – seguimos para o caixa.
Paguei minha cerveja e encontrei um amigo, conversei um pouco com ele enquanto os outros pagavam a cerveja. Logo uma amiga se juntou a nós e ficou analisando sua latinha. Vimos que ela estava toda desenhada com os logotipos da Copa Mundial de Futebol que tinha ocorrido meses antes, e pensamos que a cerveja poderia estar fora da validade. Depois de analisarmos um pouco a situação, resolvemos que ela poderia tomá-la assim mesmo. Ela concordou e abriu o lacre.
“HEXACAMPEÃÃÃÃÃÃÃO!”
Com o susto, cada um de nós se afastou o máximo que conseguiu da latinha escandalosa. Ela foi parar no chão depois de ser aberta e começar a gritar desesperadamente – sim, a latinha! Todas as pessoas que passavam por aquele local tomaram um susto tão grande quanto o nosso, inclusive as balconistas da padaria e os clientes mais próximos. Depois do susto, começamos a rir ao perceber que se tratava de uma latinha premiada da promoção ocorrida durante a transmissão dos jogos da Copa. Foram criadas latas especiais que soltavam o “grito da torcida brasileira” quando abertas, com o objetivo de estimular a torcida durante os jogos da seleção – e o consumo, é claro.
Depois dessa história toda, o que mais nos deixou revoltados além do fato de a Copa já ter acabado, da seleção brasileira de futebol não ter sido campeã e da latinha ter começado a fazer um escândalo no meio da rua, foi o fato de termos que voltar para o trabalho sem beber a cerveja.

domingo, 5 de setembro de 2010

O HOSPITAL

“Droga! O plantão parece sem fim hoje.”, Marcus pensou enquanto caminhava pelo longo corredor do hospital. Sentia dores por todo o corpo. Por que tinha aceitado esse cargo? Não precisava dele nem pelo salário, nem pelo status. Aliás, que status há em ser assistente do médico legista? A única coisa de que tinha certeza era que estava trabalhando demais e ficando cada dia mais parecido com os “hóspedes” do morgue: sem cor e sem vida!
Desde a morte de Zac, seu melhor amigo e colega, sentia uma necessidade imbecil de mergulhar no trabalho. Só assim não sobrava tempo para pensar nas circunstâncias do acidente que matou Zac. No entanto, sempre que tinha uma brecha, um tempo ocioso, as lembranças tomavam conta da sua mente. Recordava o início da amizade entre eles na faculdade de Medicina, o jeito “excêntrico” do amigo – aliás, não sabia, até hoje, se essa excentricidade estava mais para mentira ou fantasia –, relembrava as festas, os amores, tantas coisas... E agora tudo estava virando pó. Sentia-se culpado. Talvez, se tivesse levado à sério os relatos do amigo...mas não! Creditou tudo à compulsão por mentir e à imaginação fantasiosa de Zac. “Ah, Sr. Zacarias, será que dessa vez você tinha razão? Bobagem!”.
Nas últimas semanas que antecederam sua morte, Zac disse que andava ouvindo vozes, que se sentia observado e perseguido quando passava pelo mesmo corredor que ele, Marcus, caminhava agora, durante os plantões noturnos. Zac andava nervoso, desatento, chegou a trocar as identificações de dois cadáveres, um verdadeiro desastre.
Sem perceber tinha parado em frente ao elevador do 6º andar, local do fatídico acidente, lançando um olhar vago para o fundo do poço escuro, distante. Por um instante teve a impressão de ver, através da porta pantográfica, o corpo inerte do amigo. “Pare com isso Marcus ou você vai acabar como o Zac!”, disse para si mesmo e foi buscar o material que o legista-chefe, Dr. Benjamin, havia lhe pedido há mais de 15 minutos.
Assim que cumpriu sua tarefa, voltou ao corredor deserto decidido a tirar uma soneca antes do lanche da madrugada. Ficou contemplando o pé-direito altíssimo, característico das antigas construções. Aquele edifício datava do século XIX e tinha o odor dessa época, parecia que estava impregnado nas paredes. À noite, a iluminação fraca projetava sombras sinistras e o silêncio dos últimos andares era quebrado pelos gemidos de dor dos pacientes do quarto andar, ruídos fantasmagóricos... Talvez esses sons tivessem contribuído para afligir ainda mais o espírito perturbado do seu falecido amigo.
Adormeceu e teve um sono agitado. Sonhou como há muito não fazia ou não lembrava que fazia. No sonho andava pelos corredores escuros do hospital, empurrando o corpo de um jovem que havia sofrido um acidente durante uma escalada. Ele tinha a cabeça fraturada, uma fratura tão grande que era possível ver a massa encefálica, além de estar com a clavícula exposta e o corpo todo escoriado. Os ferimentos eram feios e, apesar da limpeza superficial que os enfermeiros haviam feito, o corpo tinha muito sangue ressecado cobrindo a pele.
De repente, o cadáver sentou-se na maca e começou a falar com uma voz rouca que parecia vir das profundezas da Terra, mas que, contudo, lhe parecia familiar. Ele, Marcus, empurrava a maca como que hipnotizado, seguindo o comando daquela voz que trazia as lembranças da faculdade, despejando ressentimentos, mágoas, invejas. Era a voz de Zac!
Pararam à beira do elevador. O morto levantou-se, contornou a maca, abriu a porta pantográfica e do poço várias vozes clamaram. Marcus sentiu apenas o toque gélido e suave de uma mão nas suas costas. Fechou os olhos e mergulhou.
Despertou assustado sentindo seu corpo extremamente solto e a lufada de vento no seu rosto. Esfregou os olhos, achando que estava sonhando dentro do sonho, mas quando conseguiu abrí-los só teve tempo de enxergar a escuridão final.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Só isso

O pior não é aceitar que já não há mais um futuro, mas sim pensar que o passado acabou e o presente já não pode mudar isto. Sumir é ser covarde, sou covarde ao não querer te ver e hipócrita ao dizer que não, não sinto mais nada. Mas será que as palavras ainda dizem mais que o coração? Ser forte não é chorar escondido e sorrir na sua presença, é apenas tentar ser forte, tentar enganar e tirar você da cabeça quando insiste em não sair do coração, é fingir jogar um jogo de paciência em que no final tudo volta ao seu lugar. Parece autêntico, verdadeiro, mas são palavras, apenas palavras. Palavras que não dizem, não expressam, não amam, nunca vão amar, eu posso dizer ao mundo que te odeio, seria a maior mentirosa, mas poderia. Para que mentir com as palavras se o sentimento não diminui com isto? Não faz sentido. Se fosse real, eu passaria as noites escrevendo tudo que poderia acontecer ou o que eu poderia sentir, mas ao invés disso, passo essas noites, pensando, pensando em como seria se você estivesse aqui, como seria se você ainda fosse meu, só meu. Ou até mesmo como seria se eu não tivesse te conhecido, e definitivamente paro de pensar, pois mesmo sem você comigo agora, prefiro assim, não me arrependo de nada.
São tristes as manhãs que prometem mais um dia sem você, são tristes as noites longas que cumprem a promessa. Mas amor não se implora, não se pede, se tem por merecimento. E não tem como eu dizer: “ei, seu bobo, será que você poderia me olhar, pois estou aqui, esmagada, com a sua presença?” ou ate mesmo: “será que você poderia me abraçar como se estivéssemos caindo de uma ponte, porque eu estou no chão com a sua presença ?” nem mesmo poderia falar: “teria como me beijar como um beijo de final de filme, porque eu estou aqui, sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença?” Não, melhor não, definitivamente eu nunca poderia dizer isto, são coisas que não se falam. Ate porque, amor não se pede, é uma pena!
É uma pena correr sem ter algum lugar pra chegar. É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha, ser apenas alguém que constroi sonhos sozinhos. Mas não posso ligar pra você e dizer: ”estou sofrendo aqui, vamos parar de estupidez de não amar e vem logo resolver meu problema? `` Mas amor não se pede, dá raiva eu sei.
Eu esperei você desviar o olhar para eu entender que estava indo embora, esperava um ultimo abraço para perceber que não mais sentiria a sua pele macia em meus braços. Mas agora, o que seria mais triste, continuar com o que não teve um começo? Por que acabou, se ao menos começou? Eu lamento, e só. Você não imagina o quanto eu amaria ter você aqui, agora. Parecia estar numa brincadeira que tem fim. Tem fim e teve fim. E eu estou aqui, cansada de ter brincado, mas querendo mais. Quero mais com você, e aí é o meu erro, preciso esquecer dessa brincadeira que sai perdendo. E sem alguma outra saída, eu fico bem, por apenas saber que você esta bem, eu gosto muito de você, e eu nem posso mais te amar!
É como se tirassem o gosto de um doce que você amava tanto, e depois você comesse cinco desses doces seguidos, pra ver se em algum momento o gosto volta. E no final, você fica mais triste, pois percebe que independe o numero de doces que você coma, o gosto jamais vai voltar.
É triste ter tanto amor querendo escrever uma historia, mas só escrevendo um texto. É triste saber que falta algo e saber que isso não se compra, não se substitui, não se esquece, nem ao menos se implora. Mas amor, você sabe, amor não se implora. Amor se declara e sabe de uma coisa? Você sabe, você sabe!
Eu sei o quanto é cansativo correr da dor, mas pra que parar e esperá-la? Não faz sentido. Vou correr até eu não aguentar mais, e nessa hora eu burlo cada súplica do coração para que eu pare e sofra um pouquinho, um pouquinho que seja para passar.
E para que vender tanto o meu corpo e tão pouco minha alma? Porque quero você comprando o que realmente quer e não enganando querer levar na promoção. Cansei de promessas de compra e das devoluções daquilo que você não queria. Cansei de expor minha alma se no fim tudo acaba. Então, está tudo aqui, a perna, a barriga, o rosto e o enorme buraco que me deixou. Cansei de idealizar um amor que não existe, um amor que não dura pra sempre, e só por isso já não é amor. E se “nada dura pra sempre” o amor não existe. E na verdade é que nada é inteiro porque até o inteiro para ser todo precisa ter seu lado vazio.

domingo, 9 de maio de 2010

Mirante

Sem nada programado para o meu domingo entediante sozinha em casa, resolvi dar uma volta na rua e meus pés me levaram para o mirante da faculdade. Era um fim de tarde de verão, mas como tudo nessa cidade é diferente das outras, estava frio. Não um frio cortante, mas uma brisa gelada que incomoda o suficiente para sair de casa munida de um moletom. Sentei-me o mais próximo possível da paisagem, mesmo que aquilo me deixasse com medo de cair. O chão parecia distante do meu corpo, e isso me deu a sensação de voar. A cidade a minha frente tinha movimento, pessoas andando, ônibus e carros circulando pelos morros e becos em toda a parte. As nuvens pairavam sobre os pontos mais altos daquela vista alucinante. As luzes começavam a se ascender e isso dava um tom alaranjado à cidade. O anoitecer se aproximava e a temperatura caía com uma velocidade impressionante. Nada do que eu via parecia ser real. O azul quase marinho do céu misturava-se com o cinza das nuvens e o amarelo-alaranjado das ruas agora totalmente iluminadas. As pessoas passaram a ser vultos, e os veículos, pontos maiores de luzes e barulhos. Tudo era tão lindo e diferente que pensei que pudesse estar sonhando. Nada do que tinha visto na vida chegava perto do encanto que estava diante de mim. Parecia mágica. Só estando aqui para saber o que Ouro Preto esconde por detrás de suas montanhas.

sábado, 1 de maio de 2010

As boas (des)aventuranças de Narciso
‘Como Hera’, defecando em berço esplêndidoBem desventurados são os que me invejam, pois eles sempre serão recalcados

Olá, meu nome é Narciso. Tenho certeza que você me conhece. E, justamente por ser conhecido entre todos (afinal de contas sou o único indivíduo indispensável a todas as épocas e todas as espécies), irei dispensar as tradicionais apresentações. Porém, só para constar, gostaria de comentar que tenho pele clara de seda, olhos claros de mel e cabelos castanhos claros de cetim reluzente. Resumindo: sou o rapaz mais belo do mundo em todas as épocas! Sou ainda mais bonito que Dorian Gray, aquele rapazinho do retrato. Para se ter uma ideia, se eu pudesse (eu posso), faria sexo comigo mesmo (eu faço, mas não conte isso a ninguém; nos dias de hoje, isso não é muito bem visto).
Aqui neste não-tão-belo espaço, lotado de gente desprovida de simetria física (assim como o mundo é) irei publicar algumas de minhas experiências “nesta longa estrada da vida que vou correndo e não posso parar”. Tenho a certeza de que é um prazer para o editor do site ‘me ter’ aqui e sei também que é um imenso prazer você, indesejável leitor, ter a oportunidade de ler aquilo que esses lindos dedinhos (meus róseos e rechonchudos dedinhos) traduzem em palavras; coisinhas que estão prenhes nos neurônios mais ativos e lindos do mundo (os meus, é claro).
Vamos então... Estive conversando com meu espelho a respeito das minhas destemperanças fisiológicas. Pois então... ultimamente, tenho... como posso dizer para que você me entenda... tenho mijado pelo orifício retal. Caganeira entende? Perguntei ao meu espelho: como uma coisa tão fétida pode sair de um orifício tão lindo? (Só para constar, fiz clareamento de ânus há alguns anos) Pois bem, o espelho não respondia, é claro. O espelho se recusa a falar comigo, ele fica tímido diante de tamanha beleza. Mas o problema é que eu não consi... Nossa... Lembrei-me de um acontecimento interessante. Depois eu volto a falar sobre minha problemática fecal.
Há alguns anos, estava eu na casa de Zeus e, como sempre era, Hera fazia um tremendo auê, descia o barraco mesmo. Enquanto checava meus e-mails no computador olímpico, eu ouvia os berros que vinham lá do quarto do casal:
- Tudo isso é culpa sua. Quem mandou você se fantasiar de cisne para comer aquela piranha. Eu que te fiz rei. Você sabe muito bem que eu existo há mais tempo que você. Eu sou a “Rainha do Céu” a “Hera do Trono Dourado” e você me trocou por aquela ninfetinha mau caráter, destruidora de lar. Você Fez isso porque meus peitinhos são pequenos que eu sei!
- Do que você está falando? Fui eu que destronei meu pai Cronos e acabei com a dinastia dos deuses tirânicos. Hoje os deuses são olímpicos. Que maravilha! Graças a mim você é o que é.
- Fala sério, deixa de ser idiota, todo mundo que conhece um pouco de mitologia grega sabe que eu nasci primeiro que você. E não desvirtue o assunto, porque ainda não acabei.
- Ai, meu Zeus, isso não terá mais fim! – Desabafa o próprio Zeus.
- Eu não falei sobre a piranha da Metis. Você a engravidou e depois que seu compadre Apolo, aquele retardado do Boteco do Oráculo disse que o filho de Metis ia te destronar, você engoliu aquela vaca com barriga e tudo.
- Deixa disso mulher, a vida segue. O que importa é daqui pra frente. Eu te amo e você me ama e isso é que é o importante.
- E Atena, sua filha? Você pensa que eu acreditei naquela historinha que você me contou? Aquilo é parola flácida para acalentar bovinos (TRADUÇÃO: Conversa mole para boi dormir, no caso, para vaca dormir)
- Mas foi a pura verdade. Lembro-me como se fosse hoje – eu passeando por um lago, senti uma dor de cabeça, cuja intensidade aumentava até que se tornou insuportável. Então gritei de dor, e Hefaísto, meu camarada de copo ouviu o grito, pegou um machado duplo (não me pergunte de onde ele tirou o machado duplo) e partiu minha cabeça. Da minha cabeça golpeada saiu Atena, totalmente armada, lançando um grito envenenado de guerra e cantando a trilha sonora daquele filme brasileiro “Tropa de Elite”. Não sei por que você não acredita!
- Seu cretino, bem que minha irmã Têmis me avisou. Por que eu não a escutei? Vou perguntar ao Páris quem ele acha mais bonita: eu ou desclassificada da Afrodite. Semana passada, aquela cretina se intitulou a deusa do amor. É Mole? Se Páris me escolher, te destrono e o coloco em seu lugar.
- Não acredito que vai fazer isso! Pois bem! Faça então! Está claro que ele vai escolher Afrodite porque Afrodite é cocota e você é uma velha com culote. (Depois desse dia Hera pegou raiva mortal por Páris e a Guerra de Tróia se deu por conta disso).
Narciso! – Gritou Zeus pra mim– Vamos ao Lago tomar uns gorós e azarar umas ninfas que o clima aqui não está muito bom.O que aconteceu à beira do Lago Tétis, você nunca saberá, pois ninguém escreveu sobre isso e eu também não pretendo. Já estou cansado e preciso voltar para o espelho. Numa próxima oportunidade, conto o final de minha fatídica história a respeito de meu destempero estomacal. Ui!


JJ é tão belo quanto Narciso, mas não tão narciso quando Narciso.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Vilao, o meu

Mas não é como um conto de fadas, em que o sapo vira príncipe. Aqui, sapos são sapos e príncipes não existem. Cavalos brancos e castelos enormes são meramente ficção e não há vida que possa ser feliz se for baseada no famoso “era uma vez”, pois nada entra na nossa história por um acaso e muito menos acaba com “e foram felizes para sempre”, porque tudo que é bom sempre tem um fim.
Foi brincando de Cinderela que percebi que meu sapatinho ficará pra sempre na escada. Sendo a Rapunzel, vi que mesmo com tranças, não posso fazer de alguém o meu príncipe. Nem mesmo a Branca de Neve pode continuar com a minha ilusão, pois não há quem me liberte de um feitiço ou de maças envenenadas.
Príncipes existem, na hora em que fechamos os olhos, mas basta uma piscada para que ele se vá e a realidade caia em si. E não há dor maior que acordar de um sonho, que descobrir que o nosso príncipe não passa de um vilão e que somente nos sobra amá-los, do jeito que eles são, do jeito que eles podem ser.
Fantasias foram inventadas para serem vividas, mas basta um pequeno erro e o coração já não é mais capaz de colocar um ponto final numa história e começar outra.
E assim como os livros, nossas vidas são divididas em seções, e de todas as que já vivi, seja o terror, a ação, o suspense, a ficção e até mesmo o romance, nada me foi tão belo e me fez tão feliz quanto os contos infantis e o príncipe da minha historia.
Amigos vêm e vão, amores vêm e vão, em vão, mas príncipes,..., príncipes são pra sempre, e mesmo depois de virarem vilões, são os melhores sonhos ao vivo que já pude ter.
Vilões já conheci muitos, até aqueles que tentaram virar príncipes. Mas príncipe de verdade só conheci um. Sua permanência como tal foi até duradoura, mas a transformação aconteceu e de único príncipe, tornou-se o melhor vilão, mesmo que não possa fazer parte da minha vida.
Pois se a nossa historia terminar aqui, não vai ser com um “felizes pra sempre”, mas agora o que realmente importa é que o “felizes” já aconteceu e esse vilão tornou-se o anti-herói da minha historia. E heróis, com anti na frente ou não, perfeitos ou não, são sempre lembrados.
Não desejo o “nosso” fim, o fim do encanto, mas se ainda estiver ao meu alcance, aceito ficar com o vilão, afinal, nada nessa vida é tão certa quanto parece, e já que a minha, especialmente, não segue regras nem padrões, não há nada que se oponha a isso.
Pois, pra mim, essa foi a melhor história, mesmo que ela não vá para algum livro e não seja contada às crianças, pois se fosse possível, no meu conto, eu trocaria fadas, príncipes e encantos pela pessoa que me faz bem, mesmo esta sendo um vilão, o meu.

domingo, 27 de setembro de 2009

Na minha casa, a cama está sempre desarrumada

Ela já chegou reclamando, Por que você não arruma isso?, e evitei responder. Não gostaria de dizer para ela que estava terminando com a outra só para ficar com ela. E de quem é esse cheiro de perfume barato?, e também não respondi, apenas disse que eu estava fudendo.
Mesmo afirmando que não tinha respondido, dizer que estava fudendo é uma danada de uma resposta. Ela me deu uma porrada na cara, dizendo que isso não se diz, mas se sentiu condescendente quando viu que cuspia sangue. O seu Ai, Meu Deus, eu não queria isso me soou uma das melhores desculpas que ela já usou para se chegar até mim. Eu a beijei, enchendo-a de sangue firme. Ela revirou um pouco o rosto, mas não tentava fugir. Mesmo com gosto de sangue, eu sabia que sabia beijar bem. E sei que sim. Eu a beijei, como deveria beijar sempre. Até porque eu iria ficar só com ela, e ela era um trepadão. Eu deixei a primeira porque ela usava muito dente. Teve uma que teve a cara de pau de peidar debaixo do meu lençol. Achei aquilo um disparate. Respondi que no meu lençol peido eu. E ela foi embora, deixando a calcinha. Dei descarga naquela porra e apaguei seu telefone do celular. Sabe, não devia, pois ela me ligou dias depois dizendo que queria a calcinha. Disse que tinha dado aos cachorros, eles é que gostavam de cheiro de merda. Era gostosa – uma das vantagens da lábia – mas no meu lençol, só peido meu. Essa que me beija agora parece que sente o pacto de sangue se tornar mais firme. Chupando a minha língua, como se fosse algo terapêutico, acabou engolindo meu dente. Agora estamos juntos, disse eu, abrindo meu zíper.
Saiu da minha língua, deixou o protocolo da minha barriga – nunca fui muito fã desse negócio de passar a língua pela minha barriga, até porque era a parte mais feia do meu corpo, parecia que toda mulher que me beijava a barriga estava dizendo que aceitava a minha feiura e fodia assim mesmo – e caiu de boca no fato. Não vou dizer que eu estava intumescido, porque eu não estava, tinha fudido por duas horas antes dela chegar. Mas ela é mais gostosa, sabe o que fazer mesmo. Eu ainda cuspia sangue. Pelo menos, essa não morde, pensei.
Não tava muito afim daquilo não. Eu a puxei pra cima, a joguei pra cima da cama, ela espirrou, o perfume que tava era barato mesmo – mulher fresca ducaralho, perfume barato faz a gente beber mais cerveja no final do mês – mas era ela quem eu tinha escolhido. Nunca consigo esquecer o dia em que vi aquele rabo pela primeira vez. Tinha muito pentelho, eu sei que você sabe, mas e daí? Não era uma bunda linda? Não me pergunte como tive fôlego para comê-la por mais uma hora. A outra já tinha me feito gozar por três vezes, aquela seria a quarta. Um bom número para uma brisa de segunda-feira. Amanhã eu ia ter que voltar a procurar emprego, tentar pagar a porra do aluguel do barraco, essa favela é por demais calma, aqui os safados não vendem com fuzil. Eles têm página na internet e delivery com motoboy. Ainda vinha uma pizza junto. Era barato. Quando eu queria uma pizza mesmo, eu tinha que avisar que era para vir com Guaraná.
Ela encravou a unha na minha perna. Eu gostava quando ela fazia isso. Te juro que preferia quando ela agarrava assim a minha bunda, quando me engolia todo. Mas na perna é também maneiro. Era uma coisa que eu pedia sempre, não me arranha, só pra essa poder me arranhar. Ela tinha um jeito especial de colocar as unhas. Não sei o que ela fazia, mas não infeccionava. Deixava apenas aquele gosto gelado do arranhado, uma sensação boa de dor leve, sem sangrar, mas com o tom vermelho da unha que se desenhou ali. Gosto da foda com dor, mas não sempre. É bom deixar a rola esfolada. Sabe, aquela dor de inchado. Assim como fica quando se é arranhado. Pois é, eu gosto.
Na segunda arranhada ela gozou. Deu pra ver como o meu ficou todo cheio de leite. Ela também tinha esse diferencial, gozava mermo. Sem dó, nem piedade. Eu gosto dela porque até fodendo ela é sincera. Com o tempo, você vai ver que mulher sincera é melhor, porque ela não fica naquele caozinho de dizer um não romântico. Não sou muita fã dessa melaçãozinha não. Ta vendo esse botãozinho? Põe aí, vai? , não tem como não ficar apaixonado por uma mulher dessa. É engraçado, não pensei que fosse me apaixonar quando estivesse assim, coroa. Disse que ia gozar. Ela não me deixou sair dali de trás e disse pra não ter piedade. Era bom, pois assim sabia que não ia ser pai, a não ser que ela ficasse corcunda. Gozei pouco, mas gozei. Ainda ter porra na quarta trepada é um fato que merecia festa.
Depois da foda, ela dormiu. Eu nunca consegui. Precisava ficar andando, balançando o meu para ver se desinchava um pouco. Não durou nem dez minutos quando recebi uma mensagem no telefone. Terminei com ele. A pensão será boa. Tô arrumando as coisas. Passo a noite aí, ctg. Espero que não teja com sonu. Bjus. Não podia deixar aquela com quem eu ia passar o resto da minha vida comigo ali dormindo. Eu a acordei. E terminei tudo, pois ainda não era a hora de amá-la para sempre. Não agora.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A dose do corpo

A dose do corpo
Uma vez mais era o irretoque. O irrespirável. O frio próprio. Era a falta de calor dos homens, era o tudo tão incompleto. Era sua voz-agulha cortando como espada. Era 1h45min da manhã.
A Dose do Corpo (Com olhos virados pra fora)
Ele se forçava para subir os últimos lances de escada. Carregava o cheiro cruento do trabalho soturno de matar gente, embutido nos grossos rebocos caídos daquelas paredes velhas. Aliás, o mundo era velho. Tudo era destroço, era resto, era negro. As pilhas de escombros muros atrás consumiam a tranqüilidade dos restos humanos vivos transfigurados como bolhas sedentas por carne humana viva. Há anos era tudo feio, e ele era o último a tentar consertar.
Na primeira parede que via ao abrir a porta, havia o quadro de uma arma dizendo: “a salvação pode estar bem mais próxima”. Mas nunca teve a sorte do engano de uma bala. Era policial num mundo onde a polícia não salvava a si.
Porém, a corrupção que o tomava era a da saudade. Fora obrigado a matar mulher e filhos depois que o mundo se envelheceu. Havia novas divisões sociais e ele fora dos quatro o não contaminado. Não suportaria vê-los se transformando em câncer quando as bolhas em seus corpos estourassem. Estourou-os antes, matando por último a esposa, de quem sentia mais saudades e ainda o gosto de sangue invadindo sua boca quando atirou no último beijo. Até ali os escombros eram suportáveis, depois ajudou a colocar todas as cercas. O mundo era uma grande redoma de áreas não infectadas. Nas outras partes havia homens com cânceres a mostra. Deixados para morrer no soslaio da desilusão. Mas todos morriam aos poucos. Todos tinham noção do próprio limite de vida.
Para Sarcantus, nada disso era tão diferente. O que apenas o aniquilava mais era sua covardia em não se matar. Vendo-se ao espelho, barbudo, decrépito, magro, com cabelo desgrenhado e a arma tradicionalmente garganta adentro. Bart, seu gato, arrastava-se-lhe as pernas. E a arma era guardada mais uma vez. E por mais que relutasse, o seu único traço humano estava em matar pessoas.
Saia toda noite pelos fundos do seu prédio. Alimentava-se daquilo que não estivesse vivo em sua geladeira e pulava os frágeis muros da Divisão. Aprendera com o tempo que era melhor matar famílias inteiras de deformados ao invés de um só. Percorria ruínas algumas à procura de gente para ser salva. Viu duas crianças, gêmeas, com no máximo três meses de vida. Afastou o pano que as cobria com o cano esfomeado de sua espingarda e viu que a bolha no peito era nova. Se a ciência não tivesse desistido tão cedo, elas até teriam alguma chance. Criança quando explode, esparrama pelo chão. O barulho chamara a atenção de outros dois que correram, mas a perna de um não tinha mais capacidade de ser perna, e antes dela se destacar do corpo daquele corredor, Sarcantus fez questão de ajudar a natureza. Um riso no canto da boca o surge e os olhos trincavam-se ao entender a fundição de sua alma para aquele trabalho. Não se sentia nem leve nem pesado, sabia somente para onde atirar. Olhava pra baixo, o braço acompanhava o gosto da arma, que se conduzia viva, íntegra, soberba. Era um gosto único, discreto porém, ver pessoas explodindo, desintegrando-se. Gostava mesmo de atirar nos próprios buracos do câncer e, vê-los pulando na distância física da força, era de um prazer único. Foi o que fez com o segundo, ao presenciar que a vida já não era mais tanto a favor. Não mais possuía os lábios, os dentes estavam à mostra e o resto da face era corroída pela desgraça. Dava para ver como as gengivas também estavam cedendo àquela corrupção cancerígena. A arma sente o cheiro podrento e taca forte salvação. Sarcantus senta, vazio da munição graciosa.
Não se podia dizer que ali havia sido a melhor noite. Perto do corpo gelatinoso do salvo rapaz, dava para ver que aquele ainda era jovem. Em sua mão esquerda havia uma aliança reluzente, de prata, mas reluzente. Escutava ao longe o choro forte de alguém. Nas ruínas, as luzes eram de velas, e apenas algumas ao longe ainda brilhavam. Era um choro de mulher, escandalizada. Ele a tirou da mão do menino, passou a mão pelos bolsos e puxou uma foto. Havia uma família naquela foto antiga. Era de antes da guerra. Possivelmente ele era um daqueles meninos em meio a tantos outros meninos. Alguns estavam rabiscados, junto com os dois mais velhos. Deviam ser os pais deles. Com a unha, Sarcantus rabisca mais um, que possivelmente não fosse o deitado. Mas quem se importa com excluíveis? Era apenas mais uma nota em um boletim de vida, como há nos tantos boletins da delegacia em que trabalha. Sentado, escutando os choros, ele guarda a foto e a aliança. Vira a arma pra si, mesmo sem munição. Fica admirando aquele corpo sem vida, como se quisesse trocar de lugar. Sarcantus dorme, na esperança de que alguém saia dos escombros para tentar salvá-lo também.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sua Voz

Sua Voz
Flâmula flagelada de instinto, via-se o rapaz infinito limitado de gosto. Parecia vivo apenas pela mera capacidade de respirar. E por mais que em seu íntimo buscasse criar o mais belo sentido de vida, sabia que estava vivo apenas para obedecer. O senso básico do seu sonho está em enraizar esperança onde se dói mais a pele. Nele havia um jardim infinito de flores coloridas de azul, branco e vermelho. Todas guardadas apenas para ele.
A cada dia, ele escutava a voz de sua mãe. Uma distinta senhora psicóloga, controladora de mundos. A cada vez em que ouvia aquela voz, seu doce campo aumentava hectare por hectare. Adora entrar lá no fundo, na berlinda da criação, vendo como chão surgia a sua frente, inundando-se de flores coloridas. Mas em nenhum momento se esquecia de cada grão de voz que fez cada grama de chão nascer. Olhava para trás e via algumas flores reluzindo no brilho da memória. Não ficava triste ao ver alguma flor morta; sabia bem que um dia iriam voltar à vida. Era o revigorar da lembrança, que a cada momento se fazia vivo quando se revive alguma dor.
Passou os últimos anos vivendo no mundo próprio. Voltava sempre no meio do campo, bem lá onde não havia flores, pois encaixava o nascimento dos seus pés. Foi a primeira flor viva naquele mundo que guarda cada palavra sacrílega. E todas não tinham o pingo do brilho carinhoso. Eram sempre duras, ferinas e precisas. Com o tempo, passou a não mais se chatear com tanta falta de carinho, mas passou a ver que os campos estavam se fazendo morros, os morros, planaltos, os planaltos, montanhas. O sol ali nunca brilhou, mas ele sabia como iluminar seu próprio canto.
Com o tempo, viu que passaram a aparecer algumas cavernas e lá suas flores não entravam. Sentia o medo vindo daquele escuro; isto se explicava como motivo delas estarem recuadas, deitando-se ao vento que saia de lá. Tremia-se frio forte, braço que fraqueja fraco ataque. Tentou chegar perto daqueles túneis de dor, mas via se murchando, como que sugado. Tomou coragem e para dentro de um foi. Arrependimento. Viu flores decaindo lá de dentro. Luar onde brilho não brilha. Lugar onde corda de pescoço tem vida. Lembrou-se daquela corda de pescoço. Às vezes, sentia severa saudade.
E lá dentro o vento piava a voz de mundo. No brilho gigante daqueles óculos nervosos, escuta o grito agudo da desorientação. O vento feria gritando “anormal”, “deformado”, “estranho”, palavras-adubo de outras flores, as que esburacaram o seu mundo. Conseguiu sair correndo, vencendo a supremacia da tentação daquela corda, de raiz didática a todos os outros. Sabia ainda que não estava apto a ensinar. Só ainda lhe faltava a coragem para ensinar.
Do chão que subia perto daquela caverna, viu vários outros gritando a feiúra do mundo sobrenatural. Num deles viu seu pai chorando uma culpa não-existente, pedindo para todos serem o que não eram. Havia uma placa na caverna, declarando-o volátil. Saiu de cima das breves colinas e correu para seu campanado. Sabia que era dia de chuva, e lágrima de céu não-vivo limpa a terra temporariamente. Era um bom alívio.
João abriu os olhos e se vê preso no próprio quarto. Deitava-se no chão, para não desarrumar a cama. Tudo estava em seu lugar, como fora feito por ela. A milimetria do mundo clarificava aquela essência de grito, que se exclamava pela casa toda, ordenhando a vida de todos. O mundo era de sombras onde o brilho se fiava sem vida. Era um campo tão imundo de pureza, era aquele João Silva Campos apenas respirando, como fora feito para ser.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Entornos de uma sombra aurora

Não era de lhe mais belo os antigos olhos, nem mesmo era assim a pele. Não era de lhe mais bonito os cabelos escorrentes ou até mesmo a elegância das roupas, havia envelhecido, por si, os anos da juventude. No entanto, estava muito aquém de ter atingido a velhice em si. Houve o puro fato de uma corrupção própria ao deixar-se re-cair fabulosamente nestes poucos anos que passou unicamente lendo. E por pouco, não mais do que um tanto pequeno, o céu daquelas obras imprimiu-lhe a velhice em olhos antes meigos. Não mais parecia o menino jovem ao ombro de um amado pai, energia que demora a se consumir de vida, mas que agora era reflexo do conhecimento adquirido de forma tão ab-rupta nas longas idas à livraria. Extensa por si, tornou-se extenso o conhecimento do jovem moço, que deixara de ser moço bem antes dos quarenta.

E por mais que o questionamento se siga, tornou-se senil, ou um pouco mais que senil, por apenas ter passado lendo e lendo, vivendo páginas e histórias de outros séculos, eternizados pelos números de vendas livreiras. E preso arquétipo naquele mundo paradoxo, viveu o que nunca lhe foi tempo. Foram cinco anos ininterruptos lendo a livraria da esquina do Leblon, local de todas as possíveis letras e fugas.

Por ter tido a chance de viver as leituras – herança de um pai que preferiu economizar a viver algumas mais intensas felicidades – largou o trabalho para viver os estudos que supunha ter deixado de lado. Tinha uma vultuosa soma no banco, economia desnecessária paterna, mas que agora se sabia vivida nos livros. E o jovem rapaz de vinte e sete chegou aos trinta e dois com um currículo de leitura de quase todos os consagrados, e apenas se consagrou como o homem oblongo à cadeira ao lado da imagem do Autor.

A leitura foi-lhe fuga no início para a desventura da lembrança daquele ombro, depois se tornou o caminho certo todos os dias, após o horário do almoço. E ali ficava acompanhado dos copos de destilados, cigarros, charutos e livros lidos. E também um punhado de folhas para anotação. As cadeiras ao lado sempre se cediam às mesas mais humanas, ficando o jovem perdido dos companheiros, anotando e catalogando frases e trechos. Era um homem de sabor pelo conhecimento, que desfiava tudo que podia apenas em folhas sem pauta, organizada nas prateleiras do belo apartamento na Dias Ferreira.

E não tardou mais três anos para que o estoque de grandes autores se esgotasse. Mesmo os mais lautos autores, best-sellers, prêmios Nobel ou outros tantos, um dia lhe vieram faltar compaixão e não tinham mais produzidos outros grandes livros. Não se sentariam mais com ele Rosa, Cabral, Torres, Cony ou Maupassant. Todos os novos consagrados, os antigos, sofistas, todos, esgotaram-se em não mais do que nove anos de leitura. Resultado de algo em torno de dez horas por dia, vivendo palavras dos outros. Porém, sabia-se que não iria se render a estudos feitos por estudantes de Letras, alguns apenas majorando títulos universitários, vendendo suas análises a bancas outroras; seus estudos eram seus, nunca delimitados pelos outros. Mas o limite feliz da conquista de ter ainda mantido lauta suficiência financeira – gastava pouco, pois não tinha contas exageradas, apenas se mantinha vivo para a leitura – agora se resumia ao triste encontro do limite, ou abismo, de já ter lido tudo produzido ao longo de uma humanidade. Viu-se obrigado a pedir a conta e às cinco da tarde de quinta-feira foi caminhar pelo Leblon.

E ali lhe era a intromissão. Andar por entre árvores e escutar vozes de alguma brincadeira. Nem bem se lembra de quando lhe incomodaram as risadas nubentes ou de algum jogo de criança. Viu que o mundo pouco mudara, e as mais sutis também não lhe traziam a força para uma nova percepção. Os carros eram estacionados. As calçadas eram esburacadas. E não no mais nada poderia se encontrar. Era como todos, mais um entre vários. Apenas sentia que ali nunca realmente fora seu lugar. Não custou muito para as pernas se cansarem. O roto boné francês – parte da indumentária intelectual da leitura – foi retirado por causa do calor. A testa, lisa pelo pouco uso, dava também os contornos para a força do brilho do Sol, que o oblongo jovem senil agora se deixava consumir. Sentou-se vendo aquele brilho, que há muito não o incomodava. Pouco se dava, porém, à lembrança daquele momento. As pessoas que ali se serviam de vida, andando ou caminhando ou meramente existindo, compunham-lhe a visão, como se fossem personagens antes existidos. Dava-lhe prazer ao ver que conhecia a todos, estereótipos de si mesmos, figuras iniludíveis que se constroem de mero acaso social. Eram os mesmos formatos humanos que corriam com poucas roupas, adultos e jovens moldados na própria insegurança de vida, e ali se suava como uma máquina sudorípara.

Ficou a imaginar o que faria daqui por diante, já que os textos haviam se extinguidos, e não ficaria a mercê de surgirem novos consagrados para continuar lendo. Sabia, porém, que mesmo os novos iriam escrever sobre as mesmas comiserações humanas que todos os outros grandiosos já escreveram. E que não haveria um novo ou alguém que se desfigurasse de filósofos, pensadores, ou quaisquer que sejam os existidos, que viriam a questionar a raça humana sob uma nova óptica. Aliás, sabia sim que nova óptica não existia. Continuou firme com o pensamento de que não releria os consagrados ou críticos literários diversos. Ficaria com sua percepção e ponto. Passou a andar as pedras da calçada, desviando-se daqueles infelizes que buscavam manter a forma.

Tal foi a caminhada que chegou a Ipanema. Lá viu um sebo, de beira de esquina. Os mesmos livros, e até mesmo os que se julgavam leitores. Sabia ali que iria encontrar um bando de pseudoleitores, adoradores de orelhas bem escritas, e que mal sabiam a existência dos vários autores. Ficou incomodado com a jovem vendedora, vestida em trapos escuros, que acompanhavam a desordem dos cabelos e a tristeza do cigarro. Era mais uma jovem detentora de um vaziismo intelectual, já assim poderia ver. Mais uma no meio de mais uns. O suor gotejava no moço uma raiva sua, típica sua, de alguém que viveu a juventude dos bons textos. As estantes apresentavam velhas Barsas, dicionários, léxicos universitários e mais um monte do seu puro conhecimento. Sabia de todos as boas frases, as boas construções. A bancada da vendedora era acompanhada de panfletos sobre estética cultural moderna – ou releitura com novo vocabulário – que nunca fez questão de ver. Eram besteiras de jovens outros pseudos. E assim mal se sabia.

Deu-se ao luxo, porém, de duas pequenas revistas sobre literatura. Papel-jornal, algo simples. E viu a mistificação de seu pensamento, jovens meramente escrevendo. E lá encontrou sua conformação. Mais um bando escrevendo sobre os mesmos temas humanos, usando palavras contemporâneas, algo que se quiçá julgaria literatura. Não haveria do que se consagrar, pensava. Leu as duas revistas, e não via a chance de um dia encontrar um bom novo autor.

De um dia a mais, havia o fim daquela quinta. Poderia até se dizer um novo começo, pois o que faria dali por diante? Fora ao chuveiro, e depois às anotações. Reviu a organização de algum de seus papéis e releu alguns trechos. Era a soma de uma vida, curta assim poderia dizer, mas era a sua vida naqueles papéis. Foi folheando-os com toda a sutileza capaz de alguém que sabia mexer com o papel, e admirava a folha por seu teor amoroso com a história e sua importância em catalogar a vida. E viu a lágrima que caiu sobre uma das páginas. Pegou-se chorando ao ver o limite tão novo somente, tão velho e limitado em si. E nesse caso, vieram-lhe as memórias, as incômodas, que os anos de leitura não conseguiram esconder. Eram elas a Macabéia da própria insegurança, a vírgula no início do parágrafo. E se viu Bentinho na traição do próprio mundo. A força da saudade paterna – vírgula aurora no esquivo de sua adolescência.

E num aparador perto da porta de seu apartamento, lá teve a sorte de uma outra memória. Encontrava-se, na sombra do pai, última foto vivida com ele algum sorriso. Foto em terra importada, não aquele lugar nacional. Segurava com o pai uma nota de dólar e um balão de personagem de história infantil. E percebeu o papel em sua mão, a importância dada pelo pai e tudo que assim se valia. Soube-se assim sua ação, força antes incrustada que lhe fez perceber a ignorância pura do seu indistinto mundo a todos.

domingo, 26 de abril de 2009

A última profundidade do nunca

Ela estava em paz, bem consigo mesma. Nada mais poderia lhe despejar uma gota de tristeza. Estava diante do vidro mais transparente do mundo, nem parecia que tinha vidro ali. Ria o último riso de boca risonha. O mundo agora é outro. Mais justo, um pouco mais que tudo. Começava a entender que agora as coisas serão diferentes. Irreversíveis. Seria um mundo de sombras novas, sombras brancas, como fumaça de café quente. Sentia isso na pele, que tocava vento leve, só sentia, entendia, porém, tudo, na desrazão do pensamento. Era isso que estava voando por ali. O mundo agora era menos desacreditável. E por menos que pareça, seus olhos possuem uma nova capacidade de enxergar.

Mas ela não podia piscar. Via como tudo era medonho ao cercear a entrada de luz em suas pupilas. Era castiguento fechar olhos e ver tanto horror, ver tanta gente sofrendo. E era isso que estava bem ali, no escuro dos olhos, sofrimento de gente grande. Não parecia ser coisa boa, mas pela paz que sentia, pelo silêncio que ouvia, por toda boa solidão que a acomodava, resolveu encarar escuridão de tristeza. E firme fechou os olhos.

Escutou os vidros quebrando. Era gente chorando lá no longe, abraçada. Era lágrima de gota de rio, em beirada de degrau. Vinha em enxurrada, gota que desce suada na pressão de olho que não quer ver. Reflexo de cachoeira de alma, brilha do brilho, o brio da saudade. Esmerando pensamento retinto, era saudade que toda aquela gente chorava. Parecia uma desgraça grande, das fabulosas, para tanta gente chorar junta em canto de casa fechado. E era a maior de todas. Eram todos de preto, e ela estava ali, de branco. E se viu como única menina que não chorava. Presa no redemoínho da luz, cárcere do vidro que não fere o fausto tato daquelas pessoas. Era a única que ria, risada de face boba, como se sentisse uma sonolência gostosa. Escutou os vidros se quebrarem ainda mais. Entendia agora o silêncio pacífico. Era sua carne afrouxada de divindade deitada no meio. Era sua pessoa trazida para o divino mais próximo. Era um fim. E logo se viu, de novo, lá, no vidro, abrindo os olhos. Viu se vindo visto.

E lembrou, então, dos doces carinhos de sua irmã. Mais nova três auroras primeiras, que puxava docemente seus cabelos, fiando detalhe por detalhe, desenhando admiração em carinho. Lembrou dos dedos do menino, que jurava ser o último, no início da vida. Lembrou da ranhetices do pai – quem diria –, oleiro de vaso grande, artesão de fina arte, como ganhava sustento de todos. E a mãe, mulher de palavras fortes, mas tão sinceras e tão gostosas. E lembrou que do rio levava sabor salgado, sabor de vida que se desfoi. Abriu os olhos, a mesma paz sonolenta. Mas nos olhos, as lágrimas que cobriram o vidro tão transparente desenharam os rostos das mais inteiras saudades. E seria isso, somente, redução. Não mais os teria. Eram agora desenhos de lágrima em cobertor de vidro. Sentiu o vento se apertar, era hora de ir mesmo.

Das duas elas próprias que surgiram, deram-se as mãos. Carrocearam o céu inteiro, pulando de pulo em pulo, meninas de almas puras. Agora eram as próprias companheiras, solitárias meninas de uma só vida. No final, se viram e se abraçaram, somando-se. Elas não mais se veriam, mas uma bem sabia da outra. Da soma delas, a que sobra, sabe quem vai, sabe quem fica. E assim, driblam o fim nas lágrimas que corrompem a fórmica de qualquer rosto, aurora desfacelada, mas puro brilho de amor longíncuo.

sábado, 25 de abril de 2009

Um dia a mais no nosso inverno

O peito se reconforta em calmaria. Era o sopro juvenil do inverno chegando. Como princípio, é apenas um vento doce, que faz com que o homem a si se abrace. Porém, era apenas o princípio que de lhe é novo momento, e não somente tanto a ti, havia o reconforto do novo abraço. Passou os últimos cinco anos sofrendo do mesmo ataque cardíaco na incerteza da inanição corpórea. E por mais que os remédios de Pirassununga o reconfortassem por uma noite ou outra, minguando em braços pagos de branda aurora, nunca um homem se completa quando não se percebe na pungência do olhar de uma alguém.

É o que se precisa, na paz do outro, a própria paz. Saber que o sorriso que se solta é sorriso só seu, e se é sim só na sua síntese de um, o mais certo de todos, é agora o mundo que brilha na única capacidade de existir. É assim que se pensa quando se pensa estar no pensamento ali. É assim, na sua frente, a graciosidade do respeito do sentimento. Era ela, rindo, abraçando-me para fugir do inverno que se chegava.

Para cada um, o verdadeiro passo tem um centímetro motivado pela vitória, mas a vitória, como troféu na força de um novo homem, tem um quê de abstração que talvez muitos não entendam. É aqui, porém, que muitos entram não com a ponta do pé, mas com a sola do próprio sapato, tentando minguar a raiz do que se faz presente na plantação abstrata da vitória. Poucos gostam de ver um feliz sorrindo, e por isso, na capacidade intelectual humana, razão inversa da própria felicidade, tentam minar o que se constrói na beleza outrora. Porém, lhe digo aqui, nada fará minguar a plantação que se surge em nossos campos. É inverno, sim, época de deixar o campo descansar, mas é hora de estruturar a plantação. E ela já estar por vir, aí; sei que sente um tanto a força da necessidade de arar a terra.

Agora, me pergunto, qual é o quê do escritor que não sofre? Qual é o quê do leitor que não se vê no texto? É inverno, ponto, momento de catar algumas folhas que caem, cuidar de algumas plantas que secam, cuidar do espírito que se acalma. É inverno, pronto, mesmo no brilho do sol que range as nuvens frias lá no céu. E não mais do que Sol, aurora, fica o brilho do raciocínio. Mesmo frio nas nuvens, é no Sol-aurora que se permeia a intensa qualidade do próprio brilho. E se se passou o tempo do calor, é no intuito do raio dos seus olhos que encontrarei a divina aurora. E não foi mais durante do que cinco minutos que se encontrou o excesso da raiva nessa sua certeza. É a linda força que Vi, capacidade única que fez o escritor fugir dos textos tristes e escrever algo reconfortante. É inverno, sei, mas com o mais polvoroso brilho que o mundo pôde fornecer.

Comentário Rápido