quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Mais 20! Por favor!

Uma ficha me cai neste início de ano: conemoro em 2016 vinte anos de magistério. Pode parecer muito, vinte anos de uma mesma coisa, uma mesma profissão, que durante muitos dos meus primeiros anos eu fui dissuadido de continuar, claro, diante de tantos, sinceros e válidos argumentos sobre ela, digo, como passaram rápido esses vinte. Como me foram apressados, ainda não sinto a canseira da mesmice. A vantagem de ser professor é que mesmice não existe.

Lembro-me bem quando com meus 16 anos eu me tornei monitor de inglês do Fisk, lá na minha lha do Governador. Era um imberbe metido a besta, que estudava com afinco o inglês e que precisava ajudar em casa. Juro, nem pensava mesmo em ser professor. O sonho daquele oblongo garoto era ser desenhista industrial de carros, pois era só o que eu imaginava. Os quadrinhos e a literatura eram sonhos à parte daquele amante de imaginações. Como gostava de imaginar coisas. Como gostava de pegar o ônibus e ir ao Fisk.

Lá descobri alunos. Em alguns, amigos. Em constância de explicação, fui tomando gosto pelo raciocínio aprofundado. Queria saber mais para explicar mais. A ilustração de carros passou a ser deixada de lado. Livros, quadrinhos e histórias, eu precisava de todos. Passei a ler desenfreadamente. A estudar um tanto mais. Aqueles meninos precisavam saber. Com o tempo tudo foi se mesclando. Abandonei desenho. Eu era de Letras.

Se alguém falou algum dia falou com você que dar aula era uma cachaça, como ele estava certo. Esse troço é muito bom - cachaça e aula, e hoje não me vejo fazendo mais nada além disso. Tudo bem, estou aqui escrevendo, publiquei livro, vou publicar outros, é também uma profissão, mas só agora que me dedico bastante à escrita, à sala de aula me detenho mais.

Minha primeira carteira assinada como professor eu só consegui em 2001. Colégio Pinheiro - acho que nem existe mais - ali na Penha. Ainda como professor de Inglês, desta vez para Ensino Fundamental. Antes disso, na faculdade, dei aulas de Língua Portuguesa e Redação em Pré-vestibular comunitário, em São Gonçalo e Alcântara - Locus Pré-vestibular, que saudade! Lá cultivei amigos que tenho até hoje. Professores. Alunos. Amigos.
Hoje dou aula em grandes escolas, estou na rede pública também. Nas várias realidades sociais há os vários sabores sa profissão. Sim, já senti o amargor dela, a tal da desvalorização, dos excessos, de algumas faltas de respeito, mas nada que me tirasse o gosto pela sala de aula. Esta cachaça tem constantes sorrisos.

Ok, sim, já pensei em sair de sala de aula. Já investi em concurso fora da área. Fui empresário - na educação -, já estive no jornalismo automotivo e cultural. Sempre afirmei que vim de uma geração poluída, que vive a escassez de emprego, a inconstância feroz da economia e a desvalorização ímpar do dinheiro. Temos no sangue a capacidade de rebolar e fazer dinheiro. Não muito, mas algum para defender o leite das crianças. Por sorte - ou acaso do destino - elas nunca me tiraram de aula. Não preciso mais de subterfúgio. Quero mais 20 anos disso.

Aliás , terei bem mais de vinte. Só pela prefeitura e Estado, tenho que me segurar até 2040. 24 anos até lá, ou seja, eu com 60 anos. Já predigo o texto : estou me aposentando, que tristeza! Enquanto isso, deixa eu voltar às salas, lugar de onde nunca sairei. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma Flor esmagada no trilho

Uma vez escreveu Drummond – poeta maior do modernismo – sobre a flor e a náusea. Neste poema ele retratava uma flor feia, cinza, que rompia o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio que acompanham o dia a dia de uma sociedade capitalista. Socialista que era, imaginava um mundo mais digno, mais justo, belo, mesmo em uma flor feia. Se estivesse vivo, penso que teria ele motivo para todas as tristezas do mundo ao ver que o corpo de um homem, morto atropelado por um trem no Rio, não parou locomotivas posteriores, “a cidade capitalista precisa mover”.
A história de um ex-presidiário transformada em uma crônica triste, noir, de um cotidiano balizado pela pressa, traduz a que ponto chegou a indecência humana em relação ao próximo. O corpo de um homem em cima de trilhos, morto ao tentar fornecer sustento aos seus familiares – ele vendia bala nos vagões – profanado pela necessidade de a cidade seguir – eram muitos passageiros que não poderiam parar suas vidas em torno de um morto – reflete o nosso desapego pelo próximo. “Era um presidiário mesmo”, alguns disseram. Este homem teve pouca chance à dignidade.
Como a flor feia de Drummond, que traduzia esperança diante da pura tristeza, aquela flor humana esmagada demonstra o cinismo humano em sua máxima delcaração. Mas podemos pensar que a sociedade se perdeu de vez? Não sou tão pessimista a esse ponto, mas como professor, ainda nutro uma esperança em bons sentimentos. Como escritor, traduzo uma incredulidade. Ação e percepção andam lado a lado. Tenho medo de ser completamente vencido.

Que esta flor pisoteada em trilhos crie uma nova história para nós, brasileiros, humanos fervorosos, tradutores de alegria. Bem, é o que espero, no final das contas. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

À Tia Macaca e Vovó Thetê

                Se houve alguma saúde esse ano, eu devo a vocês. Depois de tanta surra, se houve alguma barreira a Amostra, esta eu devo a vocês. Depois de tanta luta renhida, travada no silêncio dos bastidores, viver quase toda síntese da derrota, acusado como motivo, se Minha Pequena Essência da Felicidade pouco ou nada soube, se ela despertou ainda mais para a vida, para o desenvolvimento de sua inteligência, para o todo que ela pode se tornar, eu também devo a vocês. Devo muito também a vários. No entanto, não há débito maior que aquele que se faz sem as cobranças financeiras, mas na súmula íntima da dedicação e da necessidade de ver transformação. Se houve alguma transformação positiva, eu devo a vocês.
                Eu devo a vocês os livrinhos de jogos, desenhos e brincadeiras que ela recebeu. Eu que não tinha tempo para comprar, para ir à banca e olhar o que tinha a cara dela. Eu devo a vocês os exercícios feitos, a paciência que ela exigia, carente, tão carente, tão lá e não aqui. Eu que não fui tudo, mas algo tentei ser, no fim limite do meu trabalho, quando com ela, às noites, a brincar um pouco, a conversar um pouco, a ninar quando me sobravam seus pequenos olhos abertos. Agora ela e me está tão distante.
                Eu devo a vocês um muito. Um eterno pedido de agradecimento. Não é a primeira vez que recorremos, agora então como produto misto de tantas desgraças e perdas e realocações e refeituras, parece não haver tempo para um fôlego, é sempre maratona atrás de maratona, correria que se faz para correria, com pouca chance ao descanso, com nenhuma chance de tranquilidade. Ainda sim, agradeço, em meio a lágrimas sufocadas, gritos de desespero mordido de língua. Agora, limitado à imposta distância que se fixa à minha realidade, antes produto do sonho dela, agora só do infeliz eu, aqui sozinho estou. Vivo o cárcere das dívidas financeiras. Abandonado alimentando cachorros e mato. Vendo no entorno todas as desorganizações, as faltas de conversa, a crença cega de que era a capaz, eu aqui, limitado, vilipendiado, socado em feno como estrume, esperando ser ruminado na íntima virulência de todas as tristezas. Finitude bate à porta, como forma de libertação. Mas antes de buscá-la, vou honrar a cada um.

                Findo aqui esta minha crônica vontade de me redimir. Perdão por todo e qualquer erro que deixei acontecer, que vitimou cada uma de vocês duas. Fico-me mais tranquilo, entretanto, por saber que há vocês, há a Bisavó, a questionada que não deveria ser, ela é também alvo de minha paixão, de meu amor, de minha eterna gratidão em existir. Só peço que nessa nova jornada de paralelepípedos disformes em passos de salto alto eu não seja marginalizado, usado como argumento de motivo ou até esquecido. Eu nunca esquecerei vocês. Amo-as. Muito. E muito obrigado – por tudo! 

Natal de 2014

Desta vez não teve árvore
Enfeites
Rostos felizes de noéis chineses
A soar barulhos incompreensíveis que aceitamos como músicas de Natal

Desta vez não teve correria
De uma preocupação quando a casa fosse se encher
Com parentes que já ansiavam ceia
E todos os quitutes guardados
O cheiro inundando a casa
A geladeira segregando garrafas pet de água
Para caber mais e mais doces estupidamente enormes
Rabanadas estupidamente amontoadas
A luz da mesma geladeira pedindo socorro
Tudo que poderia traduzir um feliz caos.

Aqui dentro jaz o silêncio do esquecido
Daquele que não merece mais ser parte
A única palavra que pensa é Vilipendiado
vi-lhe pendurado
será que após serei perdoado
da estupidez que adorna raciocínios?

Vão-me dizer que escolhi
Fruto permitido da ogiva desta sua tristeza
A contornar mágoa com uma máscara
De íntima iniquidade de existir
O que você fez será eternamente perdoado
Pelos remédios que consomem esta sua lucidez.

Lucy in the Sky of Diamonds
Todos dizem que é eterna sensação de elixir
Mas o que eu quero era poder estar aí
Ritmando o caminho
Engenheiro de obras prontas
A dizer
Que a quantidade estúpida de rabanadas será pouca
Que a quantidade estúpida de doces será pouca
Que o tamanho do chester, tender, presunto, arroz, uva passa, nozes, castanha, refrigerantes, bebidas das mais diversas e tudo de todo o outro que agora me vem à cabeça será pouco.

Agora tudo são lembranças
Tudo são esquecimentos
São mágoas
São reticências

Marco o Natal de 2014 pela ausência da árvore de Natal nesta casa enorme
Tão grande quanto toda a tristeza que hoje ela adorna
Toda a injustiça que dela aflora
Eu que sou vilipendiado
Maltratado
Esquecido
Invalidado
Sem direito a porta de entrada
Com a porta de saída tão escancarada
Lá há alguém que me chama
E diz, “Vem, não há mais volta. Essa sua vida foi só revolta. Entenda o todo em que te transformaram. Aqui também não há luz. E esta é nossa sorte, pois nada e tudo se confundem”.

E de lá que hei de aceitar o convite.
Para cear.
Pela última vez.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

O uso das palavras certas

                Foi no terceiro fim de semana de Outubro deste turbulento 2014 que vivi uma situação ímpar em minha carreira como professor e escritor. A convite de uma pessoa que hoje tomo como exemplo para minha vida – como me são Petrônio, Meu Seu Luiz, meus irmãos e Chico Torres, marcas de perseverança - eu fui fazer uma palestra motivacional. A primeira em minha vida – na verdade, a primeira das primeiras. E deparei-me com algo para lá de inusitado, daqueles que marcam a pluralidade que hoje toma o todo que sou eu. Eu fui palestrar para um time de futebol.
                Eu só fui descobrir mesmo quando diante do fato. Eu que não entendo de futebol ia conversar com um grupo que simboliza a esperança do verdadeiro brasileiro. Antes de mais nada, era um time para lá de misto – em síntese das realidades cariocas – e que alimenta para si a glória da vida no gramado. Eu que nunca fui do gramado – só quando era dono da bola – palestrava para um grupo já pronto pro jogo. E atrás de mim o campo. Eles de uniforme. Eu de preto. A grama do verde mais cintilante.
                Por sorte compunham comigo este que me convidou – Sérgio Exemplo – sua mãe e o pai de um dos jogadores. Balizavam comigo um losango: eu a frente, Exemplo à minha direita, o pai à esquerda e a mãe, lá atrás, orgulhosa que só. E não era à toa. Fui juiz num momento em que muitos alimentam esperanças enormes, enormes até demais, em cima do futebol. Algo que vemos hoje inclusive em programas de televisão. Porém, na contramão de tudo, eu não simbolizava peneira ou regra, mas uma síntese daquilo que move a vida. Comigo eu tinha um apito em forma de PowerPoint e palavras de efeito.
                E a elas agradeço muito a ineficiência de minhas escolhas iniciais. Quando num primeiro momento supus que não as encontraria e neles não chegaria, o que me houve foi o inverso. Eu tinha tudo em mãos, todo um script de piadas ilustrativas, conclusões chaves e caminho certo para o teatro de apertar botão e concluir ideias. De nada me valeram. O que me valeu mesmo foi ver cada um daqueles rostos ávidos não só pela bola, mas por um futuro. Senti neles a necessidade de outras palavras, ali voando, transbordando na coerência daqueles olhares, no júdice que faziam do sonho que possuíam e do mundo que os esperava. Do PowerPoint eu não tinha como fugir, ele me serviu bem, foi condizente com a proposta. Agradeço a Senna e Chris Gardner, pois ali me salvaram. Palavras mais certas do que as minhas. Não à toa Senna é um herói ad eternum.
                Porém, não existe professor que não aprende, escritor que não lê. O conhecimento e a vontade são inerentes àqueles que movem a própria vida. Este que é novo Exemplo, bom aluno de uma das melhores escolas do Rio, investe parte de seu precioso tempo em um projeto para lá de ambicioso e fundamental para um mundo que hoje se constrói de individualidades pela ostentação e fotinhas típicas de um excesso de exposição. Sérgio pode, num primeiro momento, até se misturar nessa multidão de adolescentes preocupados com suas mínimas diferenças em iguais. O que descobri nesse fim de semana – digo até que um pouco antes do que isso – é que por trás daquela aparência de estudioso e preocupado com o próprio futuro há um coração que pulsa muita alma. Um adolescente – sem os arroubos de uma ideologia que o alimentaria normalmente a essa preocupação – que move de si uma força na confiança plena do ser humano.  Ali estavam meninos que querem futebol. Estava eu, a palestrar, a personificar uma educação pensada por Exemplo. Estavam um pai, uma mãe, com aquele fervor de sangue a pensar nos filhos. Estava Sérgio. Mal ele sabia: ele era toda a palestra.
                 Ganhei até uma caixa de bombons finos. Minha filha foi quem fez a festa quando os viu. Eu já tinha alimentado a minha esperança no homem. Saí dali com a certeza de ter encontrado toda a humanidade em renovação.

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