segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A queda do Sagat brasileiro

Não sou fã de lutas, artes marciais ou qualquer coisa que envolva a palavra guerra de maneira direta ou velada, apesar de meu nome ser uma referência a Marcis (ou deus Marte, deus da guerra). Saí do exército quando me vi diante de armas, elas me lembravam a infância que tive agaixado em função dos tiroteios da favela surgente em frente de onde morávamos. Muitos conhecem até as piadinhas infames que uso referentes à luta, pancadaria ou o que concerne a isso. O único gosto sobre luta vem dos vídeo-games que joguei no decorrer da adolescência, um em especial, o Street Fighter, me será eterno. E o que assisti ontem foi um final round entre um lutador que me lembrava Ryu – o que foi capaz de gerar uma cicatriz no peito de Sagat – e a queda do fantástico lutador de Muay Thai, dono de joelhadas e pernadas longas, inflamáveis e infalíveis. Não tanto mais.
                Anderson Silva é desses típicos heróis brasileiros, forjados na limitação, no impensável, na vitória que vem da batalha cotidiana a todo custo. Símbolos que surgiram há muito num romantismo de risos nacionais, criado no colonialismo de poucos recursos e muita força braçal, pois é isso que sobra para muitos brasileiros, a força braçal, pois educação é coisa para poucos e os que conseguem vencer pensando são nerds que internacionalizam sua capacidade para outra nação (e que depois não se veem como brasileiros). Anderson, Lula, Pelé, Neymar e muitos outros se criaram nessa mesma forma que hoje alimenta o ideário brasileiro e os instiga à vitória, movidos pelo “sou brasileiro e não desisto nunca”. No entanto, há neles também alguma demonstração de arrogância, algo que pode ser fruto de uma necessidade de diferenciação em relação ao verdadeiramente brasileiro, um humilde nato. E foi o que escutei sobre o nosso Sagat, um cara que instiga psicologicamente o adversário e em sua penúltima luta, este Ryu Weidman deferiu um certeiro que o bambeou e caiu, perdendo o cinturão. Agora, em uma revanche válida, midiática, explosiva e testoterônica, Sagat sofre de seu próprio veneno. Dever de casa do mocinho, que partiu para o próximo nível, o de escrever o seu nome na parte final dos créditos e no ideário negativo dos brasileiros.
                Em função de sua arrogância, parece que Anderson recebeu de vez a punição. Para os que não conhecem, Sagat faz parte do quarteto final de inimigos imbatíveis no jogo. Com ele se compõem o Balrog, o boxeador de Las Vegas; o Vega, o espanhol ágil e de garras afiadas e M.Bison, o mais forte, o último mesmo, líder de um cartel – possivelmente de drogas – na Tailândia, para quem Sagat diretamente trabalha. Quando jogávamos, não nos importávamos com os símbolos políticos, incomodava sim o fato de o brasileiro ser um monstro eletrizante, o Blanka, ignóbil, forte, fácil de ser derrotado, porém queríamos jogar. Sagat queria porque queria lutar. O repórter afirmava sobre a hegemonia brasileira no atual UFC, ou seja, os inimigos a serem batidos. Um close no brasileiro desafiante, Belfort, com cabelo espetado, uma cara desfigurada pelos anos de luta e se colocando como o próximo a ser confrontado. Em seus olhos também não havia a humildade nacional – Belfort não vem da pobreza, das limitações típicas de muitos brasileiros – ali ele era o Blanka, vociferando sua raiva, explodindo sua força midializada, alimentando as bolsas de apostas, o Panis et circensis de todo o sempre. O que enxerguei foi um vídeo-game de carniosso, tudo junto, misturado, transfigurado no medo da certeza da vitória do mais novo e do afoito senhor por seu cinto.
                A dor da comoção foi a dor do coletivo. Via-se um lutador de Muay Thai vendido, com golpes conhecidos, a hegemonia descamisada, descoberta. Do outro lado, um lutador pouco conhecido, mas sustentado no pedestal de um caminho de lutas PERFECT (na linguagem do jogo, impecável, sem derrotas). Os dois possuíam até olhares de certeza. E quando depois de um round, muitos socos, sangue, pancadas firmes e certeiras, sabia-se que a luta seria osso duro de roer.
                E roeu. Em um chute, que deu para se ver a concentração de um Special (golpe que deflagra muita força e que pode finalizar o inimigo), este virou contra o aplicador e Sagat cai, vítima de si mesmo, de sua vontade pela vitória o quanto antes. Ryu lhe trouxe a cicatriz na perna, e no peito, no ego ferido da ágil aranha abatida por si mesma. Todos ficamos sem sono, levantando incertezas sobre o futuro do nosso. A dor que assomava a todos vai levar muito tempo para cicatrizar.

                É no fundo uma péssima forma de terminar o ano de 2013. Um ano de levantes nacionais, mas que sabemos que vai levar muito tempo para caminhar com todos os seus pares e símbolos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O resultado militar de uma passeata

                Quinta-feira passada era o famoso dia 20 de junho de 2013, conhecido como dia da Passeata de um milhão de manifestantes. Havia uma felicidade coletiva, uma comoção pelas mudanças que tanto assolam a consciência brasileira, já cansada dos feitos de políticos salafrários. Até aí, nada de novo. Seria a primeira vez que eu participaria de um movimento que preza melhores condições para todos, nada de reinvindicações unilaterais, específicas. Os cartazes, plurais e aos montes, refletiam todas as angústias, a necessidade de representação e a descrença na atual democracia brasileira, falha, apática, permissiva e fajuta. Mas nós, os manifestantes, atolados de esperança e zonzos entre tantas primeiras vitórias – a queda do preço das tarifas e a mobilização para lá de bonita -, não vimos que caminhávamos ingenuamente para um campo de guerra.
                Munidos apenas de cartazes e muito grito – as musiquinhas pareciam estar guardadas há muito tempo nas gargantas descrentes -, os manifestantes, aos montes, principalmente famílias, em miúdos, pessoas que nunca foram, mas que queriam usar o exercício cívico para mostrar civismo e cidadania, lotavam as ruas do centro do Rio de Janeiro. Eu mesmo cheguei por volta de 16h30min, comprei a máscara do Guy Fawkes – V de Vingança – a vesti e fui me unindo ao grupo de insurgentes. Aos poucos, encontrei pessoas, alunos, companheiros de sala de aula, compatriotas no dever cívico por melhorias. Quando já mais próximo da prefeitura – nosso alvo principal – lá as musiquinhas ganharam mais força, os braços estavam mais altos e os pelos mais eriçados. Todos ríamos, pela sensação de mudança que encontrávamos estampada nos olhos e rostos e corpos e bandeiras. A comoção era viva. Os passos dos que chegavam tremulavam chão e bandeiras com mais força.  Até que começaram os ataques aos manifestantes.
                A Presidente Vargas estava toda tomada por barreiras fixas ao chão. Elas, num primeiro momento, servem para evitar que pessoas atravessem as ruas por baixo, longe das passarelas. No entanto, ali serviu como dique para evitar a dispersão bolheada dos manifestantes, para todos os lados. Só podíamos seguir para trás, retornando, encontrar-nos-íamos diretamente com aqueles que queriam chegar à Prefeitura. Passamos a correr, a colidir com todos. As nuvens das bombas de efeito moral foram tomando o ambiente. Gás lacrimogêneo, spray de pimenta e tiros de bala de borracha ampliavam a nossa angústia. Ali víamos a enrascada em que entramos. Algo genial dos agentes militares da opressão governamental, aproveitaram a oportunidade para traumatizar brasileiros de várias idades e gerações no que diz respeito à manifestação. Helicópteros da polícia militar em voo rasante, policiais do BOPE vinham pelas ruas paralelas, cercando os manifestantes. Enquanto que éramos todos apenas uns acuados, que passaram a se perder de seus companheiros, pois precisávamos nos salvar.
                Já mais a frente, os telefones não funcionavam, até possuíam sinal completo, mas só dava para passar mensagem. Outro detalhe genial da atuação militar, pois qualquer um consegue correr e telefonar, mas passar mensagem não. As estações do metrô – haja vista muitos manifestantes terem comprado passagem de ida e volta – estavam fechadas. Não conseguíamos acessar a internet, não sabíamos quais estavam abertas. Nós, que caminhamos para mostrar nossa intenção por um Brasil melhor, estávamos diante de nossa própria aniquilação. Eles tinham a faca e o queijo nas mãos para oprimir o movimento e sufocá-lo em sua raiz.
                Não devemos, porém, nos intimidar. Penso que há formas de atuar nas ruas, nas manifestações, sem que estejamos vendidos, cercados em nossa necessidade de grandeza. Para os já acostumados, por favor, direcionem-nos, não queremos perder a energia que nos move, mas, inclusive, não precisamos ficar vendidos no meio de nossa atuação. O movimento é bonito demais para se perder diante do aparelhamento governamental contra aqueles que a bancam, contra nós, os manifestantes.

                

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O preço de um medo

                Jabor, arregão, conhecido por sua veia explosiva e, às vezes, afoita, deu mais uma demonstração de que elites opulentas costumam julgar massas ditas inferiores e tachá-las a bel maneira que querem. Sei que o exercício de humildade – como disse, exercício -, atrelado a uma percepção mais concreta do que de fato aconteceu, pode arrefecer um pouco os ânimos em relação a sua pessoa. Mas a sua ação não deixa de ser um exemplo de vários que, no topo de suas efígies, estão sentindo o chão tremer com a marcha dos indignados.
                Poucos foram os políticos que até agora apareceram para dar alguma satisfação. A nossa Presidenta Dilma legitimou o movimento, até como lembrança histórica de sua atuação, mas amedrontada, pois no seu cursinho de vestibular para presidente não lhe deram a disciplina “como lidar com as massas opressoras”, ela se encontra acuada, como todos.
                No entanto, o medo dos políticos ainda não se concretizou essencialmente. Agressões como diminuição de salário dos professores e aprovação da “cura gay” aparecem como exemplos da pompa substancial que ainda possuem. Para estes, sim, sou a favor do impeachment, da deposição. As razões deles podem até soar como válidas, mas serão naturalmente escusas. Devemos reprimi-los nas urnas. O poder do voto se torna onipotente e onipresente neste momento.
                Sabíamos há tempos que uma explosão popular iria se deflagrar mais cedo ou mais tarde. Eu particularmente achava que viria para a geração de minha filha, hoje com seis anos, que não entende o levante barulhento e o sorriso bobo e utópico do pai e da mãe. O que minha geração cantou em letras adolescentes e virulentas, esta geração faz questão de colocar em prática. Não foi medo nosso, nós ainda éramos comandados na implicitude. A atual tem total poder de anonymato e capacidade de exposição ao mesmo tempo. A internet, uma vez transformada como mais um instrumento de alienação e exposição do indivíduo, se tornou o principal instrumento de manifestação e movimento. O feitiço se torna contra os feiticeiros das siglas democráticas.
                O medo das elites opulentas, agora oprimidas, cresce em sua essência, pois a origem de controle e comando do Brasil – os políticos – está encurralada entre a fonte financeira destas elites financiadoras e o clamor público. A sua principal forma de sustento – a política – agora será usada como arena de sobrevivência. Os marcados serão aos poucos jogados aos leões, os que sobrarem serão sabatinados. A carnificina está sendo montada.
                Não vejo, no entanto, a necessidade de se criar novos partidos políticos. Por estarmos vivendo um movimento apartidário, sem lideranças explícitas, algo que traduz a descrença na política atual como um todo, a busca por criar um novo partido traria, sim, muitas adesões, mas no ato democrático, há a necessidade de se criar uma oposição. Quem se oporia a esta força? Os partidos remanescentes? Os dados de uma nova realidade estão lançados. Penso que podemos aproveitar aqueles que estejam disponíveis à conversação, que não detenham excessos ou bandeiras anacrônicas.

                Sei que cenas posteriores podem mudar também a minha opinião. Me reservo à condição de observador que até pode ter uma consciência afoita, atolada de sorrisos e angústias, mas que não vai julgar à luz de preconceitos primevos. Por sorte, não sou um ex-guerrilheiro em trajes globais, que vocifera a agonia dos julgados incapazes. A sorte está do lado de todos. O clamor público não. E no final das contas, quem dita as regras? 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Terapêuticas a mais


Há tempos escrevo um modelo de texto que me serve para extravasar. É a esse modelo que declaro chamar de Terapêuticas. Preciso dizer que funcionam, não somente como terapia barata – não frequento psicólogos e psiquiatras, mas bem que deveria. O texto é bem mais barato, e julgo que resolve bastante. Semana passada, logo depois do início do ano novo, escrevi um texto declarando a minha nulidade. Depois de muitas frustrações artísticas – sabe aquela coisa de que a pessoa tem que se tornar artista, esse cara sou eu – julguei que nunca mais conseguiria ser escritor. Foi a única que não deixou tão às claras as minhas limitações. Mas depois de perceber que nunca conseguiria ajeitar a minha vida para poder passar escrevendo pelo menos que fosse uma página por dia resolvi colocar essa minha vontade na caixinha das frustrações e esquecê-la por lá. Dias depois, estou aqui diante de mais um Terapêuticas.  
            Não vou conseguir me ver longe da literatura. Não somente como leitor, eu preciso produzir. Escrever não é somente uma forma de estar no mundo, mas de suportá-lo. Não somente de produzir o Terapêuticas, mas sim de produzir algo. Gosto do meu trabalho, gosto da minha condição de casado – adoro, na verdade – minha condição de pai me traz uma valorização do ato masculino que me deixa muito feliz, mas tudo se contrastava com essa vontade de produzir literatura, que requer silêncio, solidão e contemplação. E nesta, principalmente, é que o crônico que gera a crônica se faz capaz de existir. Há algum tempo escrevi que a crônica não vem da cronologia somente, do ato com o cotidiano, mas sim com o crônico, com aquilo que é extremo, principalmente do incômodo. É o que me acontece agora, neste exato momento, a destilar um texto a partir daquilo que mais me incomoda: a vontade de pelo menos não ser vencido.
            Eu até tinha entregado os pontos. Não queria mais escrever por não poder atender a esses requisitos básicos que julgo serem necessários para a produção. Não nego que o silêncio é do qual menos dependo – para aqueles que são pais talvez consigam me entender -, porém o ato de estar sozinho e principalmente contemplativo não consigo abrir a mão. A agonia de ter escrito aquela última crônica, dizendo que apenas mostraria coisas que já foram escritas – sim, coisas – eu volto ao texto – e ao prompt do programa de digitação – conseguindo escrever algumas palavras.
            Amo-te, Terapêuticas, este modelo de texto em que me residi nos últimos anos. Basicamente as crônicas têm vindo desta fonte. Tenho saudades de escrever aquelas que eu considerava o meu modelo de crônica, o particular que partia para o total, abrindo as vezes para uma visão de mundo, não indutivo, diga-se de passagem, mas particular. Seria muita petulância de minha parte achar que posso induzir alguém a algo, nem muito menos quero, mas sei que quem lê se abre à indução ou a percepção do que está sendo lido.
            Tenho o prazer de ser lido, de discutir ideias que partem de meus textos – petulância, sei –, por isso afirmo claramente que aqueles que leram a minha última crônica, por favor a desconsiderem. E aqueles que me ligaram dizendo que eu faria uma burrada, digo, vou acreditar na mentira que me declaram. Muito obrigado. 

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