terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dimensão


Agora a pouco, minha esposa, Você não precisa ser ciumento assim, por isso te conto tudo, e fiquei pensando, sou mesmo ciumento?
Digo, sou sim. Mas por ser introspectivo, caladão quando posso, nunca fui de externar e foi com as palavras dela que cheguei à mesma conclusão. Sou um ciumento convicto, capaz agora de poder afirmar que este traço de minha personalidade está aqui, bem diante de mim, dedo em riste, Você o é, Sim, o sou, por que não?
O ciúme é a porta aberta para a doença, para a convicção da incapacidade de autocontrole, para a clarividência das fraquezas, para o argumento incrédulo, para a irracional demonstração de necessidade de preenchimento. O ciumento é um eterno carente, que na proximidade da completude, da carência em extinção, se desespera, se pronuncia com medo, fica armado para uma batalha que não existe. Cria batalhas que o põem em xeque, Por que isso tudo?, ela diz, Porque te amo, quero te proteger desses que só pensam em te usar, digo, Você é assim com a outras?, Não, elas não me interessam, a única coisa que me vale é você, mas aí já está a discussão, ela se cala com o medo de um dia você pensar em cometer crimes passionais, tão lindos nas estórias, tão inconsequente na realidade.
Você sabe que odeio armas, numa outra tentativa desesperada. Argumento, O meu problema é autoestima, você é muito gata, todos te querem, Mas eu não, e me vem a banda no dois pés, caio sentadinho sentadinho. Ela me estica a mão, me limpa, nenhuma poeira, por que será que me detém assim?
Meu ciúme é meu espelho, meu demonstrativo de humanidade. Não quero que ela pense que sou um doente derrotado nas mãos dela, mas que sou um eterno grato por tê-la comigo. Entenda, eu que nunca tive ciúme de ninguém, agora passo a tê-lo, será que isso não é bonito?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Rabisco


                Estive durante muito tempo pensando em voltar a escrever crônicas semanalmente. É possível? É, dentro do que se considera possível.  O problema se reside na maneira como terei que me dispor e abrir mão da certeza de que tenho ultimamente: o fim do meu primeiro romance.
                Sei que já andei escrevendo sobre ele aqui para o site. Alguns até dizem que ando me repetindo ao ser tão metalinguístico em minhas análises, atuando apenas para o campo das possibilidades de escrita do que para a escrita propriamente dita. Concordo, até certo ponto, porém não nego que gosto muito dessa realidade de escrever, da sensação que precede a escrita. Cresci, por bem, lendo autores que tinham como marca a sensação da descoberta da letra, e não da letra em si, afirmada e encontrada, casada em frases. Mas daquela se vem da percepção, do sentimento de encontro com tal. Vejo que a literatura não é o encontro; é a sensação de espera por tal. Sabe aquela expectativa antes do beijo – que em alguns casos é muito melhor do que o beijo. 
                Uma situação que me ocorre sempre é estar diante da tela, prompt piscando, exigindo, aí me vem os versos de Drummond, Passei uma hora / Pensando num verso / Que a pena não quer escrever/ Porém, ele está cá dentro / Inquieto, vivo / Ele está cá dentro/E não quer sair, e ainda digo que vem na voz de Belchior, que há algum tempo musicou trinta e um versos do mestre, cada versão mais primorosa do que a outra. Lindo. Lindos. A literatura é a sensação e venho-a curtindo tanto, mas tanto, que estou conseguindo escrever um romance.
                Acho que foi esse o problema com o primeiro. Epopeia Insignificante – que muitos podem acessá-lo aqui pelos marcadores do blog – me custou muito. A sensação de escrevê-lo partia mais da responsabilidade do que prazer. Algo que está diferente com esse atual, que resolvi guardar todos os detalhes para mim antes de mostrar a todos. Para alguns eu até já falei, mas não cheguei a descrevê-lo em seus pormenores, por um detalhe bem simples: eles não existem. O ritmo da escrita está se definindo por ele próprio, cada parágrafo não sabe que será parágrafo; cada linha não muito menos se conhece. Isso é que está sendo ótimo. Não tenho domínio sobre o texto, apesar de pensá-lo, imaginar até onde quero chegar, definir roteiro, literatice, mas para cada pensamento há algo mais vivo, maior. Num primeiro momento até pensei, Não sou capaz de escrever, pois tudo que penso se perde, essa entidade chamada Literatura não aceita o que quero, ela tem pena de mim, por isso escreve por mim, dessa maneira eu estou chegando a um livro. Esse foi o meu maior sonho durante muito tempo.
                Hoje o meu maior sonho e continuar escrevendo, ou estar diante da sensação da escrita. Às vezes, trânsito, penso num poema que nunca escreverei, mas lá está, sendo pensado, digerido, raciocínio, uma rima, vou tirar essa rima, e não anoto. Nada. Alguns até decoro e uso num texto ou outro, certo de que ele está entrando ali porque o texto quer, não imposição.
                Chego ao fim dessa crônica não pelo intuito de escrevê-la, mas porque assim ela quis. É só o ato do rabisco, mas sem papel, digitação. Um gosto eterno pelo prazer do pensamento.  

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Dias Felizes

“Por que eu ainda insisto nessa p... de profissão” teria dito Chico Buarque a Caetano – ele que “é lindo” ... “ou não”, além de ser o rei do falsete – depois de ter desafinado um agudo num dueto. Pelo menos assim me havia contato um amigo querido quer também fora meu professor de Geografia...

Em dias como os de hoje é impossível não lembrar essa história e somar à outra de uma antiga ficante da faculdade que dizia que queria ser a Sheila do Caverna do Dragão e, por vezes, sumir com a providencial ajuda de uma capa – incrível como aprendemos e lembramos de mulheres enquanto somos importunados e elas põem à prova nossa sanidade.

Seja como for, eu devo ser daqueles tipinhos barrocos mesmo. Como alguém tão tímido e que quase sempre adoraria ser “uma mosquinha” ou também, como “as Sheilas”, ficar invisível busca tanto ser notado? Falar em público. Tocar para ser ouvido ... “onde fui amarrar minha égua?": pensamento preponderante de dias como os de hoje!

Fazer o que? Torcer para que dias felizes comecem com boas notícias. A de hoje foi linda. Cor-de-rosa! Dobrar a aposta (...”onde fui amarrar minha égua?” ... de novo!) e assumir minhas palavras e meus acordes.
Então, que eu tenha – e todos vocês também – dias felizes!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ÍNDICES DE DESCULPAS

Naquele momento não pensei em mais nada, e assim inicia-se esta história, pelo motivo incentivador de uma reflexão sobre o que me espera. As palavras já estavam ditas e nada poderia revertê-las. Nessa estrada não havia retorno. Quando elas estão guardadas são nossas escravas e podemos fazer delas o que quisermos, mas, quando são lançadas ao ar, nós somos rebaixados à escravidão e elas podem ser senhoras muito cruéis quando, ao serem elaboradas, burlam a etapa na qual o cérebro trabalha. 

Os sentimentos se embaralhavam e o meu peito diminuiu dois terços de seu tamanho, pois senti meu coração apertado, sufocado. Não porque estava com remorso, mas porque eu soube, naquele instante, que uma ferida havia sido aberta por mim, devido à minha irredutibilidade, à minha dificuldade em ouvir, à minha dificuldade em aceitar, à minha dificuldade em entender e à minha mania de achar que tudo pode se resolver em berros, que dessa forma serei ouvido. Aquilo que havia me transtornado já nem importava mais, pois a necessidade de estar certo levou-me a desvirtuar o assunto e a atribuir culpa a gestos completamente irrelevantes. Por isso comecei a falar, e falei até não dizer mais nada. Mesmo assim continuei falando. Mas já estava dito e eu era completamente incapaz de voltar atrás, de dizer que o que saiu da minha boca estava errado. Ou simplesmente não dizer mais nada e apenas desculpar-me. Não fui capaz.

Nada mais me deteria. Mesmo com aquela vontade louca de, simplesmente, abraçá-la fortemente, como se nada ao redor existisse e ela pudesse sentir que nos meus braços ela estaria segura, dizê-la o quanto eu a amo e beijá-la intensamente para mostrar o que realmente estava dentro de mim, nada foi feito. Eu me virei, simplesmente me virei e caminhei. Minutos se tornaram horas até o meu destino, pois eu sabia que, quando eu ouvisse sua voz novamente, algo estaria diferente, fora de seu eixo natural, como a Terra depois de um terremoto de escala máxima, provocado por palavras. A partir de então, um sentimento começou a ganhar a briga dentro de mim: a tristeza. Cruel tristeza! Lembrei-me de seu olhar. Aquele olhar desesperador. Por aquela janela pude ver que a alma dela estava despedaçada, e a rara falta de brilho neles trazia à superfície o estado em que eu a havia deixado. Lembrança aterrorizante.

Tentei desfazer, tentei justificar-me mais tarde, tentei tudo o que eu pude, mas nada me restava senão mostrar o resquício de humanidade que ainda estava em mim e fazer associações de símbolos fonéticos para criar signos que me levassem à remissão. Mas eu sei que palavras, mesmo que profundas e eloquentes, não resolveriam o vazio que senti por ter proporcionado a ela tristeza e ter feito as lágrimas escorrerem de seus olhos, pois seu coração sangrava. Sei, porém que é muito maior o que me espera, e mesmo que promessas pareçam suficientes, ainda serão pouco frente à vontade que tenho de guardá-la para sempre em mim. Minhas atitudes definem quem eu sou, e por ela quererei sempre ser o melhor que posso. Por isso minhas desculpas nunca serão completas. Mas já é um início.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sexta às Nove (62)

Tenho uma predileção por esta versão da obra de Puccini - Turandot - na voz de Pavarotti. Mesmo gostando muito do Caruso, mas Pavarotti é fenomenal, diria até genial.

Confiram!

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