quinta-feira, 28 de maio de 2009

Atalhos e nós!



Acabei de ler Tati Carlotti, uma menina que não sabe, talvez, o volume do meu apreço e admiração que tenho. Mas não só o fato de lê-la – uma vez mais – foi também o fato de ter constatado a voracidade que seu coração consegue destilar sentimentos. E será deles, principalmente na sua maneira-Tati, que venho a falar.
Ali, em seus Atalhos, há um quê de maestria. Ela sempre me pareceu ser aquela típica pessoa de olhos que ouvem e ouvidos que veem. Sempre a vi tão sensorial, tão humana e viva que não pude constatar o mais do que óbvio: ela pulsa vida. E pude mais uma vez sentir saudade de um passado tão recente, mas também tão cheio de nostalgia.
Uma vez me disseram que a sensação da Nostalgia é a lembrança de um passado gostoso, somado à constatação de sua velhice tão premente. É, foi isso sim que eu tive quando li, Vidal, tome vergonha, atualiza o seu Muquifo. Gostaria, sendo sincero, que outro muquifo fosse atualizado.
Para aqueles que não sabem, tanto eu, quanto Tati, Vidal, Flávio, Luciano, Amanda, Rodrigo, Winskow, Nilo e mais uns tantos dos bons fomos das Bagatelas. Como aquilo era produtivo. Como havia vida naquele site. Como estávamos fazendo surgir. A coisa estava dando certo. Mas um dia ruiu, só que a poeira ainda está alta, como se ainda possuísse firmeza de alma.
Sinto uma falta fudida daquilo. Não só pelo grupo, pela literatura, mas pelos seres humanos que existiam naquela reunião. Em todos os nossos encontros, todos, sempre havia muita humanidade, muita descontração, atrelada a uma ambição ambiciosa dessas de executivo de empresa nova, mas sem ferir nossa arte, nosso brio. Sabe, era bonito de ver tanta gente junta rindo literatura, conversando com cerveja e uísque e trocando salaminhos. Gostaria muito de que aquela onda toda voltasse, com os mesmos personagens e agentes. Será que é muito difícil viver nostalgia de passado sem soar pedante? Espero que não, pois quase faço um apelo a todos para que aquilo se some mais uma vez.
Tati, em especial, era a síntese dessa graciosidade. A primeira vez que a vimos, quando estávamos no aeroporto, a sua voz doce, o seu andar calmo, uma quantidade enorme de malas – Poutz, não nega que é mulher, disse um amigo – percebemos que se tratava de uma menina grande ingênua, sim, já casada, mas doce como boneca frágil de porcelana. Parecia até que a porcelana fosse de açúcar também. Stevia, para manter a forma.
Tenho uma foto no meu orkut que é a síntese do que pensava. Sim, essa mesma que está aqui no início. E até hoje penso. Éramos amigos, surgidos na literatura. Só que muito maiores do que a ambição pela escrita. Ali havia fraternidade. Havia um respeito. Tati era um tanto da síntese disso e por isso eu preciso compartilhar de sua mesma frase. Vidal, atualiza o “muquifo”. Mato minha saudade do Rio em seus personagens. Concordo!

sábado, 23 de maio de 2009

Todo esfíncter é rei



Frase comedida em entrada de prédio, é o que penso, toda vez em que me dirijo pra casa. Não adianta recuar, pedir arrego e fazer o que bem quiser – até jura – mas todo esfíncter tem vida própria. E sarcástico como é, avisa antes sem total discrição que vai conseguir o que quer. E parece que o safado gosta mesmo é de elevador, quando este sobe, ele se atiça.
E na verdade, ele se atiça por qualquer coisa que sobe. Quando então percebe subida, parece querer mostrar para o que veio. E é isso, se cresce pressão na frente, ele avisa que vai jorrar; se cresce atrás, arreia de medo e demonstra a força de sua existência. Nos últimos anos, porém, sempre vi que a força do esfíncter de alguns se firma quando se vê o crescimento por aí. O esfíncter é dotado de uma frustrante intenção de medo que duela com a capacidade de controle daquele que julga ser dono deste. Esfíncter manda, e ponto final.
O problema mesmo reside quando se está com o esfíncter na reta. Ele se recua, olhando o fundo da situação, e solta o que tiver de arma para se defender. É aí que se joga sujo, ao deixar o ambiente tenso. Tenso, pois os vários detentores estão buscando um culpado para quem dirimir aquela nuvem de baixo astral. A isso chamo de vento: denso, pesado, forte, pestilento, sorumbático, em miúdos, desnecessário. Mas vai dizer isso pro esfíncter que liberou a bufa. Ele não respeita ambiente, classe social ou momento. Libera, libera-se, coordena, impulsiona as vertentes das escolhas daquele que se sente pressionado, em tantos, faz o mundo perceber que ele ali está pra comandar. E como mesmo disse, ele entra em ação quando percebe o perigo ao seu redor, atiçando a si mesmo quando vê escalada de crescimento.
Mas a fisiologia é fantástica. Ensina a quem tem capacidade de ver. O ambiente é livre, democrático, e nem um pouco opressor. Mesmo o ânus, oprimido por arranha-céus de nádegas gigantescas, tem seu espaço garantido. Por isso é que vale o ensinamento: um esfíncter sozinho não tem a mesma capacidade do que esfíncteres unidos. E quanto mais há juntos, mais eles podem fazer entre si. Percebi isso esse fim de semana, quando fiquei até zonzo de tanta capacidade esfincteriana. E foi a união que conseguiu unir tantos e fazer aqueles ali rirem, mesmo depois de horas de viagem, tanto na sala de um quanto no carro do outro, nádegas sentadas e raciocínios a mais de mil. Foi o esfíncter, mais uma vez, o único capaz de comandar a festa. E haja fogos de tanta conquista.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O mundo nos faz fechar os olhos

Sempre me questionei por que os adultos são tão sérios? Tinha me prometido, ainda criança, que sempre manteria o espírito de criança durante a minha adolescência e minha vida adulta, não me fechando, mas ainda deixar resplandecer uma gota da minha inocência, daquela mais gostosa inocência que nos confere um ar de humildade. Acho que nessa crença é que encontro o meu erro. Viver como um homem de vinte e cinco anos não me dá outra arma a não ser analista. Pesquisador dos defeitos dos outros e das armadilhas que podem pensar contra mim. Suspeitar da risada mais alta dada por um alguém que conheço somente no ambiente de trabalho. Encarar de forma velada as ações dos outros. Saber que nos meus passos há câmeras. E que no esporro do meu chefe há a única visão dos meus sapatos.
É estranho não confiar na palavra da minha enamorada. Suspeitar que ela meramente não foi pro shopping aquele dia. Não deixar tão clara as minhas intenções de futuro com uma pessoa que toma cerveja comigo há tempos. Criar razões próprias baseadas em noções próprias, trancafiadas em visões próprias e que não são bem-vindas para muitas pessoas. Pensar que sou diferente num mar de diferentes. Olhar que todos que vestem o mesmo uniforme estão querendo mais destaque do que os outros que também vestem o mesmo uniforme há anos. Que há experiência comprovada no novo currículo mais sincero. Que o gerente não cresceu somente por causa de sua lábia de vendedor. Que meu cartão de crédito não é troféu social. Que meu carro não é reflexo da minha qualidade profissional. Que minha barba por fazer só signifique tristeza. É estranho suspeitar dos maltrapilhos, enquanto que minha conta é limpa por engravatados brasilienses. É horrível manter uma conta escondida para que minha esposa não me sacaneie. É angustiante guardar dinheiro para um apartamento de sonhos limitados. É vulgar querer saber o que pensa de mim. É um tanto quanto desesperador sair pra trabalhar sem saber se a carteira ainda está assinada. É entristecedor querer jogar playstation e assinar as papeladas. Enquanto que é fácil ler o jornal ao ver a fila de desempregados cruzando a esquina. Ou o sujismundo barbudo que dorme bêbado debaixo da marquise de um boteco falido por causa de uma pastelaria chinesa. Não anda tão fácil ficar caminhando para se chegar ao trabalho e ver crianças fingindo tristeza nas esquinas de picadeiros malabaristas. Enquanto que é tão barato manter um seguro de automóvel e colocar potentes vidros fumê. Um real eu não tenho, nenhum trocadinho, desculpa. Ver gente jogando água no meu vidro e suplicando dez centavos. Desculpa, só tenho uma nota de dez. uma nota de Dez Culpas.
É não crer que crer em algo é besteira. Que manter uma crença é irracionalidade. Que dizer que crer é bitolar-se. Que se crer em um outro hoje em dia é burrice. Que não haja mais profundidade nas coisas. Que o meu mais novo relacionamento tem data de validade curta. Que meus amigos estão meus amigos, pois meu crédito no mercado de trabalho é mais amplo que os deles. Que faculdade, algum dia facilitou alguma coisa. Hoje em dia, faculdade só dificulta a aorta. Que minhas coronarianas nunca irão entupir. Que essa dor aguda no peito seja só gases. E que muita das coisas que escrevi sejam meramente besteiras.

Não espero o dia em que, felizmente, terei netos, pois sei que o meu mundo um dia, algum dia, será simples e com humildade. Também espero não ser privado dessa realidade pela minha estranha vontade de me encontrar com uma bala perdida. Espero ter escrito a maior das baboseiras, pois, ainda, eu só tenho vinte e cinco anos.
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- Meu amor, posso voltar a dormir de novo e zerar Sonic
(texto publicado originalmente em Bagatelas - revista de contos)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A dose do corpo

A dose do corpo
Uma vez mais era o irretoque. O irrespirável. O frio próprio. Era a falta de calor dos homens, era o tudo tão incompleto. Era sua voz-agulha cortando como espada. Era 1h45min da manhã.
A Dose do Corpo (Com olhos virados pra fora)
Ele se forçava para subir os últimos lances de escada. Carregava o cheiro cruento do trabalho soturno de matar gente, embutido nos grossos rebocos caídos daquelas paredes velhas. Aliás, o mundo era velho. Tudo era destroço, era resto, era negro. As pilhas de escombros muros atrás consumiam a tranqüilidade dos restos humanos vivos transfigurados como bolhas sedentas por carne humana viva. Há anos era tudo feio, e ele era o último a tentar consertar.
Na primeira parede que via ao abrir a porta, havia o quadro de uma arma dizendo: “a salvação pode estar bem mais próxima”. Mas nunca teve a sorte do engano de uma bala. Era policial num mundo onde a polícia não salvava a si.
Porém, a corrupção que o tomava era a da saudade. Fora obrigado a matar mulher e filhos depois que o mundo se envelheceu. Havia novas divisões sociais e ele fora dos quatro o não contaminado. Não suportaria vê-los se transformando em câncer quando as bolhas em seus corpos estourassem. Estourou-os antes, matando por último a esposa, de quem sentia mais saudades e ainda o gosto de sangue invadindo sua boca quando atirou no último beijo. Até ali os escombros eram suportáveis, depois ajudou a colocar todas as cercas. O mundo era uma grande redoma de áreas não infectadas. Nas outras partes havia homens com cânceres a mostra. Deixados para morrer no soslaio da desilusão. Mas todos morriam aos poucos. Todos tinham noção do próprio limite de vida.
Para Sarcantus, nada disso era tão diferente. O que apenas o aniquilava mais era sua covardia em não se matar. Vendo-se ao espelho, barbudo, decrépito, magro, com cabelo desgrenhado e a arma tradicionalmente garganta adentro. Bart, seu gato, arrastava-se-lhe as pernas. E a arma era guardada mais uma vez. E por mais que relutasse, o seu único traço humano estava em matar pessoas.
Saia toda noite pelos fundos do seu prédio. Alimentava-se daquilo que não estivesse vivo em sua geladeira e pulava os frágeis muros da Divisão. Aprendera com o tempo que era melhor matar famílias inteiras de deformados ao invés de um só. Percorria ruínas algumas à procura de gente para ser salva. Viu duas crianças, gêmeas, com no máximo três meses de vida. Afastou o pano que as cobria com o cano esfomeado de sua espingarda e viu que a bolha no peito era nova. Se a ciência não tivesse desistido tão cedo, elas até teriam alguma chance. Criança quando explode, esparrama pelo chão. O barulho chamara a atenção de outros dois que correram, mas a perna de um não tinha mais capacidade de ser perna, e antes dela se destacar do corpo daquele corredor, Sarcantus fez questão de ajudar a natureza. Um riso no canto da boca o surge e os olhos trincavam-se ao entender a fundição de sua alma para aquele trabalho. Não se sentia nem leve nem pesado, sabia somente para onde atirar. Olhava pra baixo, o braço acompanhava o gosto da arma, que se conduzia viva, íntegra, soberba. Era um gosto único, discreto porém, ver pessoas explodindo, desintegrando-se. Gostava mesmo de atirar nos próprios buracos do câncer e, vê-los pulando na distância física da força, era de um prazer único. Foi o que fez com o segundo, ao presenciar que a vida já não era mais tanto a favor. Não mais possuía os lábios, os dentes estavam à mostra e o resto da face era corroída pela desgraça. Dava para ver como as gengivas também estavam cedendo àquela corrupção cancerígena. A arma sente o cheiro podrento e taca forte salvação. Sarcantus senta, vazio da munição graciosa.
Não se podia dizer que ali havia sido a melhor noite. Perto do corpo gelatinoso do salvo rapaz, dava para ver que aquele ainda era jovem. Em sua mão esquerda havia uma aliança reluzente, de prata, mas reluzente. Escutava ao longe o choro forte de alguém. Nas ruínas, as luzes eram de velas, e apenas algumas ao longe ainda brilhavam. Era um choro de mulher, escandalizada. Ele a tirou da mão do menino, passou a mão pelos bolsos e puxou uma foto. Havia uma família naquela foto antiga. Era de antes da guerra. Possivelmente ele era um daqueles meninos em meio a tantos outros meninos. Alguns estavam rabiscados, junto com os dois mais velhos. Deviam ser os pais deles. Com a unha, Sarcantus rabisca mais um, que possivelmente não fosse o deitado. Mas quem se importa com excluíveis? Era apenas mais uma nota em um boletim de vida, como há nos tantos boletins da delegacia em que trabalha. Sentado, escutando os choros, ele guarda a foto e a aliança. Vira a arma pra si, mesmo sem munição. Fica admirando aquele corpo sem vida, como se quisesse trocar de lugar. Sarcantus dorme, na esperança de que alguém saia dos escombros para tentar salvá-lo também.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sua Voz

Sua Voz
Flâmula flagelada de instinto, via-se o rapaz infinito limitado de gosto. Parecia vivo apenas pela mera capacidade de respirar. E por mais que em seu íntimo buscasse criar o mais belo sentido de vida, sabia que estava vivo apenas para obedecer. O senso básico do seu sonho está em enraizar esperança onde se dói mais a pele. Nele havia um jardim infinito de flores coloridas de azul, branco e vermelho. Todas guardadas apenas para ele.
A cada dia, ele escutava a voz de sua mãe. Uma distinta senhora psicóloga, controladora de mundos. A cada vez em que ouvia aquela voz, seu doce campo aumentava hectare por hectare. Adora entrar lá no fundo, na berlinda da criação, vendo como chão surgia a sua frente, inundando-se de flores coloridas. Mas em nenhum momento se esquecia de cada grão de voz que fez cada grama de chão nascer. Olhava para trás e via algumas flores reluzindo no brilho da memória. Não ficava triste ao ver alguma flor morta; sabia bem que um dia iriam voltar à vida. Era o revigorar da lembrança, que a cada momento se fazia vivo quando se revive alguma dor.
Passou os últimos anos vivendo no mundo próprio. Voltava sempre no meio do campo, bem lá onde não havia flores, pois encaixava o nascimento dos seus pés. Foi a primeira flor viva naquele mundo que guarda cada palavra sacrílega. E todas não tinham o pingo do brilho carinhoso. Eram sempre duras, ferinas e precisas. Com o tempo, passou a não mais se chatear com tanta falta de carinho, mas passou a ver que os campos estavam se fazendo morros, os morros, planaltos, os planaltos, montanhas. O sol ali nunca brilhou, mas ele sabia como iluminar seu próprio canto.
Com o tempo, viu que passaram a aparecer algumas cavernas e lá suas flores não entravam. Sentia o medo vindo daquele escuro; isto se explicava como motivo delas estarem recuadas, deitando-se ao vento que saia de lá. Tremia-se frio forte, braço que fraqueja fraco ataque. Tentou chegar perto daqueles túneis de dor, mas via se murchando, como que sugado. Tomou coragem e para dentro de um foi. Arrependimento. Viu flores decaindo lá de dentro. Luar onde brilho não brilha. Lugar onde corda de pescoço tem vida. Lembrou-se daquela corda de pescoço. Às vezes, sentia severa saudade.
E lá dentro o vento piava a voz de mundo. No brilho gigante daqueles óculos nervosos, escuta o grito agudo da desorientação. O vento feria gritando “anormal”, “deformado”, “estranho”, palavras-adubo de outras flores, as que esburacaram o seu mundo. Conseguiu sair correndo, vencendo a supremacia da tentação daquela corda, de raiz didática a todos os outros. Sabia ainda que não estava apto a ensinar. Só ainda lhe faltava a coragem para ensinar.
Do chão que subia perto daquela caverna, viu vários outros gritando a feiúra do mundo sobrenatural. Num deles viu seu pai chorando uma culpa não-existente, pedindo para todos serem o que não eram. Havia uma placa na caverna, declarando-o volátil. Saiu de cima das breves colinas e correu para seu campanado. Sabia que era dia de chuva, e lágrima de céu não-vivo limpa a terra temporariamente. Era um bom alívio.
João abriu os olhos e se vê preso no próprio quarto. Deitava-se no chão, para não desarrumar a cama. Tudo estava em seu lugar, como fora feito por ela. A milimetria do mundo clarificava aquela essência de grito, que se exclamava pela casa toda, ordenhando a vida de todos. O mundo era de sombras onde o brilho se fiava sem vida. Era um campo tão imundo de pureza, era aquele João Silva Campos apenas respirando, como fora feito para ser.

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