quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Epopéia Insignificante


(mensagem - este é apenas um conto experimental, que já estou escrevendo há certo tempo. Vou compartilhá-lo com vocês apenas a primeira parte, assim que eu terminar a segunda parte, eu a passo. Para isso, vou criar um marcador novo, específico, para facilitar leitura posterior. Espero que gostem, e por favor, críticas das mais lúcidas sempre)


1ª. parte - Aurora

I


Com o tempo, não lhe havia mais a agilidade dos passos. Nem muito menos o brilho incessante da corrida e da brincadeira, mesmo que o suor em seu rosto dissesse o contrário. Jazia parado, arfando, no canto do rio, ia sentando de cócoras, observando a casquinha de peixe que lhe chamou a atenção. Esquecera completamente a brincadeira de esconder que fazia com outros dois amigos da vila e que a essa hora estava sendo procurado e que iria perder. A casquinha passou a ser seu maior interesse naquele momento.

Conseguia escutar os passos nas folhas secas, alguém se aproximava com tanta vontade que até alguns poucos galhos eram vencidos e estalavam com gosto. Mas ali, apenas pensava na casquinha daquele peixe, fora da água, indissociável, em um luto eterno contrário ao fluxo do rio. Via aquele olho grande, esquerdo, seco, mas ainda negro, olhando para o alto como se mirasse o céu. Parecia pedir algo. Parecia era pedir ajuda.

Perdera. Sentiu o toque forte em seu ombro, por trás, quase o arremessando dentro do rio que corria rápido e incólume, indiferente ao peixe ou a ele. O rio, que sempre mantinha seu curso, nem mesmo lhe preocupava as pedras. Com toque, o menino retornou à brincadeira de esconder, agora, percebido, precisava mudar a situação. Viu o outro menino correndo para dentro da mata e não podia deixar barato. Pegou a casquinha de peixe, meteu-a no bolso, antes espanou um pouco da terra espessa e correu para tirar o atraso.

À noite, apenas observava-a. A luz da vela de seu quarto podia ser pouca, dançarina ao breve vento que se fazia, mas era capaz de fazer brilhar tudo que ele necessitava ver. O peixe não tinha nada dentro, podia sentir. Tocava com muita calma, pois tinha medo de a casquinha se desfazer em suas mãos. Ela estalava muito, e por isso segurava com muito cuidado. Viu que não tinha um buraco feito por bicho que pudesse ter tirado tudo dali de dentro. Então, como secara? Que tanto horror poderia ter ocorrido para deixar aqueles olhos tão pretos e aquela boca tão aberta? Será que o peixinho tinha morrido de susto? Ele viu o bicho-papão das águas? O menino deixa o peixe na cômoda atrás de sua cama, perto da vela e fecha os olhos com medo de acordar seco.

E ao acordar, tomou toda água que podia com os olhos bem fechados. Ficou com medo de secar que nem o peixinho. Sentiu todo o gole lhe descer e o deixar com a sensação de molhado. Quando voltou a seu quarto, viu que o peixinho ainda olhava para o alto, só que desta vez era o teto, e nada havia por lá. Pensou em enterrá-lo, para livrá-lo daquele susto, mas logo desistiu da empreitada. Se nem o rio quis enterrá-lo, por que ele o iria fazer? Resolveu, então, guardar o peixinho para ele. Pegou uma meia velha que havia no fundo do armário, uma preta, pois era a que não gostava, e guardou a casquinha de peixe atrás da última blusa de sair, até porque sabia que assim sua mãe não iria descobrir. Pensara que dessa maneira poderia estar livrando o peixinho do susto que o fizera morrer, e num canto escuro ele apenas olharia o escuro e nada mais. Não mais o espantaria o céu, ou o brilho lá de cima.


O peixe lhe trouxera uma certa angústia. Passou a olhar para o céu ou para o fluxo do rio na tentativa de compreender o que assustara o peixe. Passou horas olhando o mundo onde havia encontrado o bichinho, mas ali apenas havia o rio, havia as árvores, algumas poucas velhas e sem folhas, e havia o céu, brilhoso e cintilante, sem uma nuvem, não havia nenhuma que pudesse representar a alma do peixe. Ficou triste por descobrir que os peixes não tinham almas, ou que suas almas eram tão pequenas e não tinham o direito de possuir nuvens com sua forma. Mas ao mesmo tempo ficou feliz, pois naquele dia ninguém houve de morrer, pois não havia nuvens. Seus dois amigos ficaram pensando no que o havia endoidado, ali sentado olhando para baixo e para cima. E mesmo pedindo para que ele os contasse quase suplicando por que tanto olhava para o céu e para o rio, ele respondia que não sabia, mas que tinha de ver. Os dois desistem e voltam para a vila de pescadores.

5 comentários:

°°mila°° disse...

Ansiosa para ler a continuação.Não faço idéia do que ainda tem por vir.

Márcio Calixto disse...

Vou ver se consigo terminar toda a primeira parte até amanhã, dia 3, pois eu estou angustiado com esse texto, quero logo terminá-lo. Às vezes acho que o texto está ótimo, às vezes penso que está uma merda, mas vou com ele até o final, colocando tudo que eu acho necessário para escrevê-lo.

°°mila°° disse...

Bem, se seguir no mesmo passo que este o resultado será ótimo.
Sabe aquela narrativa que você começa a ler e não consegue imaginar como ela terminará? E isto é o mais excitante, pois percebe que o autor vai surpreender-te. É, eu to assim com seu texto.

beijo si minino!

Marina Camargo disse...

Adorei o texto. Espero continuação também. (:

Wallace da Silva disse...

Cadê o final do texto calixto???
Esse menino vao descobrir o que assustara o peixe??

Cara, o que é necessário para um texto ser considerado um conto? Porque eu escrevi um texto no meu blog há um tempo e tô com medo de ter falado merda dizendo que era um conto porque o texto é menor do que essa primeira parte do seu.

Abraço Calixto.

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