sábado, 21 de março de 2009

A entidade de Sarcantus



Hoje à noite, eu tive a clara sensação de minha morte. Ela basicamente poderia acontecer por dois vieses: ou acidente de carro, quando descendo de Araruama, na Serrinha, perto do Túnel de Flores, na curva de início, “Ponta Negra”; ou de coração, um ataque, eu não teria chance. Mas hoje foi forte fulminantemente forte.
Ao momento estou segurando o choro, pois gostaria de ver minha filha crescendo e o eu filho que está por vir. Sinto-o tão próximo, como me foi Sofia, que o vejo me chamar. Sonho com ele. Ele me vem. Por confissão, afirmo que sei quando vem, alguém me disse que teria chance de chegar aos 120 anos, pelas sortes medicinais, já o vi em mim, ó pobre, nos meus 35 anos, limitado, fatigado pelos excessos, que apenas me caberia a chance de escolher. Porém, hoje estou confuso, muito confuso, acho que na verdade estou sensibilizado pelas últimas semanas, desnorteado e perdido que levantei para escrever esse texto. Dizer, Sarcantus, acho que dessa vez você ganhou. Há tempos que não nos vemos, que não sentimos um ao outro, que nossas limitações haviam cessado. Mas aí te digo, tão puro, jovem e forte, desnorteadamente vivo, veementemente vivo, achei que tivesse te exorcizado.
Você responde que não, em nossa loucura naturalmente seremos um. Primorosamente seremos um, e que não há nada descartamente nos separando. “Como eu gostaria de ajudá-lo, fazê-lo ser realmente quem é. Deixar que nossas limitações tão humanas nos fizesse história.”, “te digo que não, seu animal, uma desculpa não pode servir para criar outras, sua perturbação não é minha perturbação, apesar de nossas inerências.”
“A vantagem de te ter é poder usá-lo”, “É assim que nós somos, como escravo seu, você escravo meu, a cada dia há mais de mim em nós, impulso autocriativo, reacionário e singelo, eu sou sua fraqueza e você meu disparate. No universo de paralelos, eu ainda me destaco e conduzo as mesmas canetas de outrora”.
Hoje, eu tive a clara sensação da minha morte, sim. Juro, algo que poderia se dar até o fim deste ano. Algo do óbvio de eu não querer, mas ter a força das certezas é um incômodo. Porém, digo, todas as minhas visões são supracoletivas, capazes de serem administradas, reavaliadas, reescritas. É o que estou fazendo agora, reescrevendo-me, dando a certeza de que não haverei derrota. Sim, não haverei.
Há por um outro o salvo-conduto, a você que é tão presente, quanto eficaz, me enfraquece me estimulando, a você, Capiroto, te uso como brincadeira por não te desejar, já me basta Sarcantus como demônio pessoal, vá atrás dos evangélicos que tanto te devoram. Eu tenho mais o que fazer. Não me limite, pois você sabe de minha força. Não é meu requisito espiritual, mas você sabe quem eu sou, e dessa briga eu tenho saudade.

5 comentários:

°°mila°° disse...

Os dois textos tem ligação? Ou é uma mera coincidencia? rs. Coincidencias na literatura nunca!
Gostei muito de ambos. Agrada-me essa idéia de conflito, mais de um eu num só eu. Ótimo.

Já vai ser papai de novo? Vixe! Meus parabéns!

Que saudades profê!
Grande beijo

Márcio Calixto disse...

Pior que não. O poema foi que eu escrevi, pois estava com o blog aberto e ele apareceu. Já o texto, este, não. No meio do processo de escrita do Epopeia, eu sempre faço assim: imprimo o texto todo, com a parte nova, e na parte branca atrás da impressão eu vou escrevendo. O problema é que em certos momentos me vêm outros textos, e ali mesmo eu os produzo. Esse foi um desses casos, como vários outros aqui (Acho até que os últimos três em prosa foram). Ele já estava escrito há um certo tempo. O problema é que eu não me lembro de ter escrito. Foi numa dessas noites de insônia que têm se tornado comuns a mim que eu o fiz, mas não lembro de sua produção. Tinha começado a escrever a continuação de epopeia, para ver se consigo terminar logo a primeira parte e partir para a segunda, que será outro grande custo. Mas lá este texto estava, como um distúrbio, um arremesso, um vômito. Nele há uma antiga entidade - antes personagem - chamada Sarcantus. Foi o primeiro personagem consistente que criei junto ao amigo Chico Torres. Com o tempo, eu passei a me dedicar somente a Sarcantus, escrevendo vários capítulos daquilo que seria uma história em quadrinhos. Até cheguei a desenhar alguns junto a Chico. Mas a separação do fim do ensino médio e início de faculdade fez com que essa relação entre mim e Chico se obliquasse. Passei a escrever com mais afinco Sarcantus. Cheguei a um total de 75 páginas. Quando me vi, o personagem era vivo em minha consciência, passando eu a ter traços de sua personalidade. Algo que me tomou mesmo. Não sei o porquê disso ter acontecido, mas vi que precisava me livrar dele. Apaguei todos os textos, escondi os desenhos e com o tempo, até mesmo com minha maturidade, ele foi sumindo. Mas quando me sinto mal, eu sei que ele aparece. O problema é que ele vem com certa força, que pensei já ter conseguido dominar, e não ainda o sei, talvez. Só que eu tive mesmo a sensação de minha morte, que ainda seria esse ano. Em um acidente de carro ou mesmo coração. Acordei de madrugada com isso e fui ao Epopeia para ver se me distraía. Quando fui ler no dia seguinte, este texto estava ao meio de outros. Por isso acho que sonhei a produção, como fato dessa razão, coloquei a imagem do Sandman - ou Morfeu, pela obra de Gaiman - como uma forma física a se relacionar com Sarcantus. Sabe, é até a primeira vez que estou expondo isso de maneira tão aberta. Esse negócio de blog é uma beleza. É melhor do que terapia.

Cerestino disse...

verdade, até ouvi dizer de um teto na veja, eu acho dizendo que postar em blog é terapêutico.


E sobre o Sarcantus. Penso ser um personagem que vc criou, e que com o tempo, pela associação dele ao sombrio se tornou a personificação do que seja, por assim dizer, sombrio. E o que é mais sombrio do que a morte, não é? Principalmente para quem tem uma sofia e uma esposa que tanto ama... e nisso Sarcantus deixou de ser personagem e assumiu uma forma de entidade, pessoalizando os medos...

isso é bem pessoal mesmo.

Abraços Calixtão.

se ajudar, numa das cartas do Apóstolo João, ele diz que o verdadeiro Amor, lança fora todo medo.

prezo pela nossa amizade! Gosto mto de vc mané! rsrs

abração!

Márcio Calixto disse...

EU TBM ME AMARRO NA TUA, PILANTRA! Some não, porra!

°°mila°° disse...

Fiquei um tanto qto boquiaberta agora. Ahn... Isto me lembra um pouco aquele filme Clube da Luta. Mas de qlqr forma se vc criou Sarcantus, nós n criamos o que é desconhecido a nós, então você deu características suas a ele.
Alguém chama Freud por favor? Pq eu to falando merda.

Eu realmente achei que entre os dois textos houvesse uma linha tênue. Carfundi então.

Beijos!

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