sábado, 11 de abril de 2009

Nada é eterno.

As pirâmides ficaram por tempos; o amor e o ódio também; o homem e seus deuses existiram por tempos; as muralhas que a protegem também, mas não são eternos.
Neste universo, ser eterno não é natural. O universo é, em sua essência, caótico. A entropia garante que nada que dele nasça permaneça eternamente, ela levará tudo de volta ao seu ciclo de vida e morte. O próprio universo sabe que, segundo suas próprias leis termodinâmicas, nem mesmo ele escapará deste destino, nem mesmo ele é eterno.

Um dia, ao entardecer de um tempo, o que por milênios chamou-se de outono, trouxe consigo até as muralhas da Cidade uma tempestade. Não era, como de costume, cinza e cheia d’água. A Cidade acostumou-se a ver chegar do norte, a cada ano, o prenúncio acinzentado que trazia alguma vida aos campos secos da eterna estiagem. Mas esta, ao que tudo indicava, não trazia vida.
A tempestade atravessou com lentidão o deserto árido, seco e sem vida; que, um dia, num tempo em que somente a Cidade, vagamente, se lembrava, fora a maior e mais exuberante das florestas. Os habitantes da Cidade, desde os mais jovens até os mais velhos, não se lembravam desta época. Nada sabiam sobre os belos animais que ali viveram, sobre as majestosas árvores que formavam um oceano verde, nem sobre como e porquê as coisas mudaram. Os habitantes da Cidade somente sabiam o que necessitavam saber para viver. Tudo o mais não era necessário e era deixado para trás. O que um dia possuiu registro se perdera para sempre havia muito tempo.
Viviam como, há milhões de anos, seus ancestrais viveram. Comendo o que, precariamente, plantavam; dormindo onde lhes fosse acolhedor e seguro. Se um dia tais seres tiveram nome, este havia sido esquecido há muito tempo. Se um dia a Cidade tivera um nome, os que se lembravam já não existiam há mais tempo.
Para dentro das muralhas da Cidade quase tudo estava em ruínas há não menos tempo que muitos séculos. Mas ainda assim, as ruínas lembravam a qualquer viajante que por ali passasse que num tempo muito longínquo, um povo teve seu apogeu, e este foi grandioso.
O viajante que passasse naquela distante planície árida, sob a luz de um gigantesco sol vermelho, jamais poderia adivinhar que aquela pequena população, que ali plantava sua subsistência, eram os últimos remanescentes da espécie que, há alguns bilhões de anos, se espalhou e estendeu seu domínio para além das estrelas vistas naquela abóbada celeste. Hoje, numa data que até mesmo o tempo esqueceu; aqui, no primeiro mundo em que habitaram, esta espécie se resume a uma pequena população de seres atarracados, troncudos, de pele morena, quase escura, recoberta por muitos pêlos, cujo andar além de incerto e duvidoso, é curvo e apressado; parecendo sempre estarem à sombra do medo dos anos passados.
A tempestade chegava como alguém que anuncia um fim. Chegava carregada de energia soprando lufadas de ventos fortes, fortes como a Cidade fora em sua aurora. Chegava trazendo areia, cobrindo com poeira o que não poderia mais se limpar, o que não poderia mais se consertar, o que não poderia mais existir.
Um dia, durante a plenitude do poder que a Cidade tivera, seus construtores zombaram de si próprios, pois nunca existiu estrutura que não necessitasse de reparos, até criarem a Cidade. Obra-prima do expoente máximo da cultura de uma civilização, demonstração máxima de seu poder e glória, a Cidade manter-se-ia sozinha, concertar-se-ia e limparia. Seus filhos não precisariam se preocupar com nada, ela provê-los-ia de tudo.
E por muito tempo foi assim. A mais bela e mais perfeita cidade já construída, cercada da única e mais exuberante das florestas que existiram, para um tempo em que seus habitantes já sabiam viver juntos, somente alguns poucos e inexpressíveis se recusaram ao milagre tecnológico da clausura, indo viver como seus ancestrais. Mas o tempo os faria redimir-se e ainda voltariam sobre seus passos.
Passaram-se os anos, chegaram os milênios, a exuberante floresta acumulou sua entropia até onde pôde, cedendo lugar com rapidez ao deserto, e a Cidade e seus filhos, permaneceram lá, impassíveis, vendo tudo à sua volta ruir, com o desgaste natural que o tempo traz para tudo, vivo ou não.
Mas um dia chegou em que este mundo não mais poderia abrigar seus filhos. Este tempo foi esperado com pesar por todos da Cidade, os preparativos para este dia já haviam sido feitos há muito, quase desde a fundação da Cidade, e eles partiram, como formigas educadas andando devagar, sem nenhuma pressa para seu destino final, as estrelas mais longínquas do céu, onde seus pares os esperavam há tanto tempo quanto possível. Quando chegada a hora, partiram, deixando para trás a terra exaurida e cansada, e a Cidade, seu lar durante muitas gerações, agora quase vazia. Pois os párias, aqueles que desprezaram a sociedade utópica desde o início, passaram a viver naquela imensa casa. Os poucos inexpressíveis ficaram a lhe fazer companhia ante a passagem dos séculos, a profecia do tempo se cumpriu mais uma vez.

O que a Cidade abriga agora não se parece mais há muito tempo com os seres geniais que a construíram, ela sabia disso, mas mesmo assim, mesmo agora quando não podia mais lhes prover quase nada, ela era seu único e inestimável abrigo.
Um estalo metálico seguido de um estrondo surdo e abafado ecoou forte pelos corredores desertos da Cidade. Em algum lugar escuro, abrigados do vento e da chuva, seus últimos habitantes se aconchegavam uns aos outros para esquentar-se mutuamente. Um dos pequeninos tremeu com medo do desconhecido ao ouvir os lamentos da muralha agonizando lá fora. A muralha que tentava conter a tempestade estava finalmente cedendo. Os ventos fortes se chocavam violentamente na velha parede que guardava a última obra dos seres que desapareceram há muito.

Nos arquivos existentes nas antigas máquinas, muita informação foi perdida, porém, parte substancial da história da cidade e de seus antigos habitantes ainda existiam nos corredores de máquinas frias e sem vida abaixo da cidade.
Em algum lugar dentro daqueles arquivos, a Cidade se lembrava, existia um fragmento de informação antiga que, estranhamente, a cidade gostava de lembrar. O momento exato de sua abertura aos habitantes.
- Durará eternamente! – disseram alguns. – Existira por milhares de anos! – disseram outros, mas todos, simplesmente todos, estavam assombrados e maravilhados com sua magnitude. Rostos desfigurados e esquecidos pelo tempo; tempo que aprendeu a trair até mesmo a mais maravilhosa e inteligente das máquinas jamais construídas. Ela não se ressentia de nada, sabia até o significado da palavra, mas não o seu sentido. Porém, estranhamente, se orgulhava de ter abrigado e provido de vida até mesmo os que foram esquecidos pelos construtores.
O lado norte da muralha cedeu. Um estrondo foi ouvido no canto sul mais extremo da Cidade. A muralha norte despencou com rugidos que mais se assemelhavam a urros de dor de um moribundo. Em sua queda, levou consigo algumas das gigantes estruturas que desafiavam os céus durante muitos milênios. Uma das torres gigantes despencou levando outras em sua vizinhança. Uma galeria subterrânea que abrigava diversas máquinas cedeu ao impacto de toneladas de metal e desabou.
O vento forte e devastador da tempestade varria a débil cultura de vegetais que sustentava a pouca vida existente na cidade. A areia do deserto tomava conta de tudo sentindo a vitória iminente de tomar de volta o que lhe fora usurpado a milhares de anos.
Do outro lado da cidade, as maiores torres que se elevavam para o céu eram assoladas pela fúria incontrolável de trovões tão poderosos que o metal onde tocavam reluzia iluminando a escuridão. Pedaços incandescentes despencavam de alturas impossíveis destruindo tudo ao chegar no chão.
A torre mais alta da Cidade finalmente cedeu, ruiu e despencou sobre si mesma, levando quilômetros a sua volta, numa destrutiva reação em cadeia.
O corredor central da Cidade, que abrigava as máquinas que um dia foram chamadas simplesmente de cérebros desabou com o peso absurdo sobre seu teto. Ali, naquele imenso corredor, deserto de vida já há muito, uma última luz está prestes a se apagar, levando os últimos vestígios de uma cultura. O último cérebro da Cidade tinha consciência de que após sua partida, as poucas coisas que ainda funcionavam cessariam, deixando os últimos habitantes à míngua total. Mas o cérebro sabia que não haveria solução, sabia que, finalmente era chegada à hora e que seus últimos habitantes iriam perecer.
Em um de seus últimos pensamentos, teve o desejo de acessar pela ultima vez a lembrança da expressão de espanto e admiração dos rostos de seus primeiros habitantes. Em um esforço, gastando o pouco de energia que lhe sobrava, tentou obter a imagem que desejava nos bancos de dados. Nada, as memórias devem ter sido atingidas mais seriamente. Sabia que era questão de tempo ate também ser desligado. Fez mais um esforço em sua busca, dessa vez, o último. Em quanto acessava os bancos de memória pensou que estava sendo um pouco egoísta ao gastar sua pouca energia em beneficio próprio, que implicaria em deixar à míngua seus habitantes. Sabia o que era ser egoísta, mas não o sentia. Conseguiu, seu esforço valeu a pena, pôde finalmente vislumbrar os rostos espantados de seus primeiros habitantes ao olhar pela primeira vez a magnitude e imensidão da última Cidade. Foi acometido mais uma vez pelo pensamento egoísta e decidiu desativar a memória a fim de garantir um pouco mais de aquecimento para seus últimos habitantes. As pequenas e poucas luzes que brilhavam palidamente no imenso painel apagaram-se devagar, e o cérebro sentiu que o fim havia chegado. Pensou em tristeza, sabia seu significado, mas não a sentia.
O frio penetrou com força dentro do parco abrigo improvisado nas entranhas em ruínas de uma pequena torre nos arredores do centro da Cidade fazendo tremer até mesmo os mais fortes dos habitantes, mas logo em seguida, o calor voltou a jorrar pelos dutos. Os estrondos eram cada vez mais fortes e assustadores. O medo os cercava como um caçador à espreita da presa. Um caçador que não poupa ninguém, nem mesmo os mais jovens e indefesos.
Um dos jovens se levanta e balbucia algo para outros três que também se levantam. Os quatro vão ate a pequena abertura na parede para observar, curiosos, a origem dos estrondos. A visão os apavora. Nenhuma das enormes torres está à vista, somente as menores ao seu redor ainda desafiavam a tempestade. Um estrondo muito próximo faz com que os outros gritem em desespero. Um dos habitantes, não muito jovem, em total privação de sentidos corre em gritos para a abertura lateral usada como entrada da pequena torre e sai para a ventania destruidora.
Os olhos de um dos jovens que estava a janela se enchem de lágrimas e de temor ao perceber de onde viera o estrondo. As torres laterais, próximas de onde estavam, estão cedendo e caindo sobre seu peso.
O jovem olha os amigos com lágrimas escorrendo por sua face coberta de pêlos e é só o que tem tempo de fazer.
Três das torres de pequeno porte que cercavam as ruínas que serviam de abrigo despencam destruindo por completo o abrigo. Os últimos habitantes da Cidade foram soterrados por toneladas de metal velho e retorcido.
Em meio à tempestade, o último sobrevivente de uma espécie a habitar aquele desolado planeta que um dia fora chamado de azul, vislumbra através da areia que cobre quase tudo o que sobrou da última das cidades um único ponto reluzente de luz, e para lá se encaminha.
Ele tenta vencer a tempestade, tenta desesperadamente ganhar mais esta batalha contra a natureza. Seus ancestrais venceram tantas outras milhões e milhões de anos atrás para que ele estivesse ali para terminar a história. Ele tenta vencer o vento que o empurra na direção oposta ao caminho que deseja seguir. Tenta vencer a areia que lhe enterra os pés, as pernas, que entra pela boca, que lhe cega.
A natureza o vence, finalmente a espécie perde a batalha. A areia do deserto cobre seu corpo agora frio e quase sem vida.
Não há mais sinal da muralha, ou das gigantescas torres. A areia do deserto tomou de volta o que lhe fora usurpado.
Uma mão calejada desaparece soterrada em meio à areia fina e avermelhada do deserto que a tempestade trouxe. E, próximo ao que seria o centro do que um dia foi a Cidade, somente uma estrutura se atrevia a erguer-se em meio fúria da natureza entrópica.
No alto do monte formado pela areia do deserto, reluzindo ao seu ultimo poer de sol, já quebrada, velha, gasta e esquecida no tempo e na história, brilhava palidamente uma cruz. Ela brilhou até sucumbir à areia. Brilhou sob a luz tépida de um agonizante sol vermelho.

Um comentário:

Márcio Calixto disse...

É comovente. A ficção além da física e matemática. VocÊ me pareceu o típico explorador da Discovery, somando conhecimentos de antropologia, biologia e arqueologia. Detalhes esses que não negam a tua formação humanística e biológica. Ficou um texto surpreendente, principalmente pela eclosão da entropia e da maneira como, inalterada, age sobre todas as coisas. Uma bela riqueza de detalhes. Traga-nos mais.

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