sábado, 15 de agosto de 2009

Uma carta ao meu irmão do meio

A velhice é redentora. Como vinho que se melhora, digo que a vida também nos faz envilesceire, como vinho, como vilão. E tenho que dizer, sempre fui o vilão de três. Como mais velho, até o mais forte, não de fortura, mas de gordo, gordura, fui o vilão dos outros que eram mais jovens. Mas eu sempre tive um problema com meu irmão do meio. Por ser o mais velho, achava que meus pais eram só meus,e que a petulância deles em colocar mais um no mundo deveria ser castigada. Não neles. Mas no novo. Por isso, durante anos, tive um certo quê de problema com meu irmão do meio. Não com o mais novo, por ter sido inquirido a ajudar na criação dele, logo o via como um filho de muito próximo. Não tinha problemas com o mais novo, o Riquinho, meu problema era o Fabinho.
Era. E hoje, ele prestes a casar, como sei que vai ser pai de um sobrinho, terei o prazer de ser tio em essência, e não por proximidade. Como me preocupa. Não o tenho tirado de minha cabeça. Passa dia e noite, choro por ele, gostaria de saber o que se passa, como andam as coisas, me diga, por favor, me diga, do que você precisa? Sou subliminar, não mostro tudo o que sinto, com claro medo de ser pedante, mas acho até que ele percebe o como ando pensando nele. Gostaria mesmo de que ele me dissesse todas as suas aflições, confidenciar aflições é mostrar o lado mais digno da humanidade. Sabe, cara, nossa distância tem me feito tão mal. Eu meio que me sinto ruim por ter ido para longe. Mas você sabe, agora sou pai, sou marido, minhas vontades passam pelo crivo de meu novo conflito, de minha nova escolha. Eu as amo, pode ter certeza disso, mas não sou mais dono total de mim. Lá no fundo, não que me arrependa, mas como eu gostaria de estar por aí só para te ver sair e voltar, só para dizer desculpa por cada soco que eu te dei, por cada chute sem motivo, por cada maldade que me alimentava de força. Eu era forte na mesquinhez da opressão da força. Fortura. Hoje é bem capaz de você me ganhar, pois estou velho.
Tudo bem, não estou carcomido pelo tempo, mas não sou mais aquilo. E digo, hoje, nesse seu aniversário, quero te parabenizar pelo quão adulto você se tornou, em seu terno, em seu O Livro, em seu tudos e tudos, em sua esposa, em suas convicções. Algumas me parecem utópicas, mas elas são firmes, convictas, dignas do respeito que eu sempre deveria ter tido. Você foi o cara que não teve coragem de me revidar o soco, de me mostrar toda vez que eu chegava bêbado ou demasiadamente fora de mim, em todos os meus excessos, você soube ser chão. Também quero te parabenizar, hoje, por seu chá de panela. Nesse nosso novo mundo, modernos que são, os chás de panela não são mais um exclusividade feminina. Não se recebem mais as panelas, mas os amigos, os próximos, os que fazem sorrir. Chá de panela não é para ver a marca das conquistas na breve festa, mas é o princípio da lembrança de um casal que se fornece de paz na vida a dois, e te digo com o leve quê de experiência que tenho, todos sabem que não sou casado, sempre disse que casamento não se dignifica numa festa e que as testemunhas são apenas fetiche de um mundo de papéis. Nossa testemunha maior é o nosso sentimento. Você está indo pelas festas, mas pelo breve do que li de ti, ao olhar, ao retrucar – você sempre falou muito baixo, como se comesse som – sei que teu caminho é de semelhança conjugal. Não vou negar que não a conheço bem – ela fala tão baixo quanto você, mas é mais econômica ainda – porém, conquista de irmão é naturalmente conquista coletiva. Família que tem muita gente sofre e sente como se fossem todos um. É isso que me passa agora. Como um, até primeiro, mas um que se comunga de vários, tua conquista é tanto minha, quanto de Riquinho, quanto de Papai, quanto de Mamãe, de Vivian, Sofia, Meio-quilo(nosso poodle) e de todo o mundo que está para ser parido daqui para frente. Chegou a nossa vez de sermos velhos. De rir de piada ruim, de brincadeira sem sentido, entrar para a Confraria dos Tios Babacas – e fazer a velha piada do pavê – mas isso não é caminho de uma vida que se vinga sem brilho – isso é a chance de poder ter a mesma paz de espírito em tudo aquilo que é pequeno.
E toque teu barco, pois a vida é garrafa de vinho, é saudade de foto, é um fim de semana chato com os parentes, mas que aos poucos, e muito aos poucos, vamos ver como a Nostalgia – a doença da lembrança – é mais firme com aqueles que envelhecem. E ela deixa o coração frouxo, calmo, sutil, de olhos fracos, braços fortes para o aperto, dedos doces para o afago, carteira aberta para o melhor presente. Apenas digo que a vida só começa quando temos a chance de duelar com ela. Agora é tua vez. Mas saiba que no canto do ringue não estarão somente aqueles que a lutam contigo, ou contra você, do outro lado das cordas estarei eu, e mais quem se digne a isso. Termino essa carta apenas mostrando que passado de criança fica no contraste daquelas antigas intenções. Agora eu sou outro, sou teu irmão. Feliz Aniversário. Feliz Casamento.

Beijos para ti,
Do seu irmão,
M.

2 comentários:

Cerestino disse...

uma das coisas mais belas de se ver [ou ler] é um coração que movido pelo amor, pede perdão.

Adorei Calixto. Me deu esperança!

=]

André Nogueira disse...

Belíssimo texto e de coragem e sinceridade q é quase uma antítese da literatura rsrsrs. Lembrei-me do Pessoa "...e a dor q deveras sente"!rsrs. Abraços grande Amigo!

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