sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Crônicas – A Era desta Guerra – texto II

Sexta-feira à noite. Recebi a pior resposta para o excesso de trabalho. Depois de um dia exaustivo e problemático – até pelo excesso de chuva deste dia 9 de outubro – tarde da noite minha filha me esperava acordada. Há pelo menos dois dias não parávamos para ficarmos juntos. Como está crescendo, ela tem se apegado mais, dormido comigo, até afirmando que sou seu namorado. Sabe-se bem que isto é da fase, uma identificação aliada a uma disputa com a mãe pela atenção do pai. Normal. Mas a fatídica cena de encontrá-la chorando na porta da cozinha foi um tanto salgada. Ela morria de saudades do pai.
Naquela sexta eu deveria ter pedido demissão de um dos locais em que trabalho, por motivos de saúde (momento metalingüístico – agora mesmo escrevi sem intenção mortivos, como se houvesse-me em mim a morte a espreitar). E não pedi. Gosto dos alunos, gosto do lugar, a pessoa para quem trabalho é ótima. Mas eu preciso diminuir a carga, por racionais declarações sinceras do meu médico. Foi até enfático, “Se continuar, você vai se fuder!” Abaixei a cabeça e ri, aquele riso do mais amarelo possível. Preciso mudar as coisas, apenas me disse. Só que ver minha menina – tão minha menina assim – chorar no meu colo dizendo, Papai, o senhor trabalha muito, foi um baque dos mais infernais. Eu não agüentei. Como eu a apertava. E ela não se distanciava de mim. Apertou-me as bochechas. Beijou-me. Foi categórica, pare de trabalhar, papai. O senhor tem que brinca com Sofia. Preciso reproduzir a fonemização de Sofia. Ela se chama por Tutia. Assim mesmo, o sinhô tem qui bincá cum Tutia. Singelamente violento.
Fiquei com ela sem pensar que sábado eu teria que dar aula às oito da manhã. Seguir com aulas até uma e meia e chegar podre mais uma vez. Transpassado pela dor do cansaço. Lá ela estaria de novo, energizada, querendo pular e pular com o pai, e este devassado por aulas que devem possui um padrão alto de qualidade. Aulas que desgastam. Aulas que massacram. Todos saem falando bem. Aula boa, professor. E lá dentro. Que saudade das meninas. Essa dupla jornada de trabalho – tanto no financeiro quanto no caseiro – são agonizantes. Racionalismo e vontade são realmente elementos dicotômicos. Por isso muitos são aqueles que apostam na Megassena. Hei de concordar que se eu a ganhasse, passaria mais tempo escrevendo, mais tempo brincando com a baixinha, discutindo os DVDS do Cocoricó, ou assistindo ao Peixonauta, que adoramos. Mas não tem dado. A vida é uma eterna soberba de mentiras, e quanto mais eu trabalho, mais me escravizo na tristeza de ser uma peça social com um bom salário. Esta tem outras amarras, outros pelourinhos, nesse mundo de consumo e vitrine. Só que os chicotes não ferem a pele, mas rasgam com muito esmero. Tutia não me segurava um chicote, nem me batia, ela só apenas declarou que é dona. Senhora de um engenho paternalista. Com o choro mesclado com sorrisos altíssimos – quem me conhece sabe que tenho voz estridente e Sofia puxou-me isso – ela acordou a mãe. Sabe o eterno olhar gelificante? Pois bem, esse mesmo me veio. Fiquei com elas até pouco mais do que uma da manhã e acordei bem antes de conseguir descansar. O que fazer? O café não estava pronto, nem me tinha o tempo para tal. Entrei no carro logo após o banho e fui ao trabalho.
No meu carro, os primeiros sapatinhos dela estão pendurados no retrovisor. São aqueles que me foram dados por uma aluna chamada Pádua. Sim, uma aluna. Uma vez mais eu estava em sala de aula, algo que era necessário, eu precisava pagar o parto da baixinha, mas fiquei com aqueles pares, ela pouco os usou. Naquela manhã, eles balançavam mais. Quase me chutavam. Pelo menos eles me mantiveram acordado para poder chegar ao trabalho. Eles eram a vociferação de alguém que estava crescendo sem a minha presença, mas que já sabia gritar todo o direito que a ela pertencia. Eu mesmo não podia fazer muita coisa. Sempre estaria avassalado. Aquele dia minhas aulas foram emotivas. Mais do que o normal. Em uma eu quase chorei, era ela ali a mim também. Enquanto eu interpretava uma catarse, no fundo, bem no meu lá, havia a síntese de uma rachadura que se firmava, e quanto mais me exigia a aula, mais a ferida se erguia. Aquelas lágrimas naquela aula eram o tanto de você, minha mocinha, que me disse Te amo, Papai, da forma mais enraizadora que você podia. Eu apenas queria te dizer, também te amo, Sofia. Dessa vez, papai já está voltando para casa.

Um comentário:

Calixto disse...

Estou de novo no trabalho, lendo para matar saudades de vocês duas. Mas vai mudar, apostei na megassena de novo.

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