quarta-feira, 29 de julho de 2009

Não sou adulto

Não que isso venha a ser uma constatação de minha imaturidade ou a total falta de preparo que tenho para encarar a vida. A questão, eu acho, me parece ser mais metafísica do que pessoal. Mesmo com meus 30 anos, não me sinto adulto em essência. Vejo-me mesmo como um pós-adolescente.
Sim, isso que sou. Um pós-adolescente, que levou a adolescência toda preocupado com questões da vida adulta que agora cobra a necessidade de viver os excessos de despreocupação que deveria ser a adolescência. Lá em vivi a vida pré-adulta, de estudo, de vestibular, de carreira e os escambau. Agora, eu tenho uma carreira, tenho filha e esposa, mas jogo muito meu videogame, leio as revistinhas que não pude ler, compro-as aos montes, coleciono carrinhos com minha mulher, que também é pós-adolescente, vejo os filmes que não pude e faço as besteiras que deveria ter feito naquela época. Caio bêbado agora, gasto dinheiro com baboseira agora, faço de um tudo agora, e não me sinto mal por isso. E vejo que não sou só eu que me sinto pós-adolescente. Há toda uma legião de trintões de carreira estabilizada que colecionam brinquedos e discutem coleções. Eu e minha esposa conseguimos completar nossa coleção de dvds dos Cavaleiros do Zodíaco, ontem discutimos com dois advogados e um corretor de imóveis a coleção 2009 dos hotwheels, meu amigo Judeu – conhecido aqui pelo codinome Marcelo – nos liga para analisarmos questões de Star Wars. Matrix não é nosso filme preferido, gostamos mesmo de Nemo, Transformers, Dragon Ball Z e mais uns outros menos cabeça. Sim, tudo bem, temos alguns dvds do Michael Moore, Supersyze Me, mas ainda escuto Heavy Metal e busco as novas bandas e coleciono as antigas. Não que me seja nostalgia, mas por puro gosto mesmo. Sou pós-adolescente, pois eu vou à casa dos amigos jogar Nintendo Wii, disputar Street Fighter no Supernintendo, ou bater campeonato de Mario kart. Não sou o nostálgico dos anos 80, longe disso, posso ter me identificado com algumas daquelas coisas de lá, mas eu ainda não sou adulto.
Mesmo ainda tendo que pagar as contas, correr contra o mês para que o dinheiro sobre, pensar no preço das fraldas, no valor do Hipoglós, a creche que é um roubo, prestação do carro e todo o cacete da vida mais adulta, no meu laptop tenho todos os jogos do atari, há quake II, Duken Nukem 3D, não os meus clássicos, mas os que gosto de jogar. Não há em mim aquela sensação de Jornal Nacional, Domingo no Parque ou apenas vibrar para que a criança cresça. Quero mais um filho, mas não chegar e tomar o meu uísque. Brinco com ela, sem a mesura da imagem de pai, com ela sou criança, com minha mulher sou namorado, comigo eu sou o sonhador. Não que eu tenha 30 anos e esse é o tempo que vou levar para pagar minha casa para a Caixa Econômica, mas porque eu tenho 30 anos e quero aproveitar cada momento que posso, pois eu não sou adulto. Sou pós-adolescente querendo descobrir ainda o restante daquilo que o mundo tem a oferecer. Posso já estar preocupado com a aposentadoria, com o futuro da menina, mas ainda quero saber quando vão lançar o videogame sem controle ou quando vai ser o show da minha banda preferida. Mas essa sensação não é só minha. Como falei antes, há algo de metafísico nisso. Há muita gente que me passa a mesma impressão. Pode ser uma questão da fase mesmo, haja vista eu não ter ido desta vez aos manuais de psicologia. Me parece que muitos daqueles que me são próximos, pertencentes à mesma faixa etária são tão pós-adolescentes quanto eu. Alguns fazendo doutorado e tocando suas guitarras com a mesma fúria de descoberta. Outros, já em seus concursos públicos, discutindo fases dos X-men, outros procurando Gen-13, eu nem lembrava dessa. Penso que todos apenas trabalhem para alimentarem sua fúria adolescente. Alguns ainda brigam com os pais com a mesma intensidade dos 13 e 14. Julgam até que eles não saibam nada da vida, choram copiosamente quando se sentem desprotegidos. Querem novos penteados, querem compromissos superficiais, alguns ainda ficam, pegam uma ou outra, brincam de festa americana, fazem rodízio de filmes. E não vejo como algo ruim, até mesmo digo, brinquem, sejam pós-adolescentes, pois assim se equilibra os cotidianos. Já basta o mundo lá fora nos chamando para a vida adulta.
Posso até estar errado, mas daqui para frente poucos serão verdadeiramente adultos. Pode ser que apenas demorem para amadurecer, nem sei se isso é amadurecimento, mas sinceridade. Claro, não devemos fugir de nossa responsabilidade, mas não devemos nos vender tanto para ela. Assim vejo, pós-adolescentes, sejamo-nos.

3 comentários:

André Nogueira disse...

Adorei caro amigo! Por 2 motivos: 1 - está super-bem escrito e gostoso seu texto (o q não é novidade nenhuma); 2 - é bom saber q não sou o único por ak com "crise de Peter Pan" rsrsrsrs. Abras

Tatiana Carlotti disse...

Tem presente pra vcs no meu blog!!!

Eloise Porto disse...

Calixto, como eu te dizia... acho que suas crônicas são maravilhosas, simples - com as boas coisas que a simplicidade traz, sem rodeios e tão profundas. Qualquer um se identifica com elas, e nem precisa ter um nintendo Wii pra isso. :p
Parabéns...

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