domingo, 5 de setembro de 2010

O HOSPITAL

“Droga! O plantão parece sem fim hoje.”, Marcus pensou enquanto caminhava pelo longo corredor do hospital. Sentia dores por todo o corpo. Por que tinha aceitado esse cargo? Não precisava dele nem pelo salário, nem pelo status. Aliás, que status há em ser assistente do médico legista? A única coisa de que tinha certeza era que estava trabalhando demais e ficando cada dia mais parecido com os “hóspedes” do morgue: sem cor e sem vida!
Desde a morte de Zac, seu melhor amigo e colega, sentia uma necessidade imbecil de mergulhar no trabalho. Só assim não sobrava tempo para pensar nas circunstâncias do acidente que matou Zac. No entanto, sempre que tinha uma brecha, um tempo ocioso, as lembranças tomavam conta da sua mente. Recordava o início da amizade entre eles na faculdade de Medicina, o jeito “excêntrico” do amigo – aliás, não sabia, até hoje, se essa excentricidade estava mais para mentira ou fantasia –, relembrava as festas, os amores, tantas coisas... E agora tudo estava virando pó. Sentia-se culpado. Talvez, se tivesse levado à sério os relatos do amigo...mas não! Creditou tudo à compulsão por mentir e à imaginação fantasiosa de Zac. “Ah, Sr. Zacarias, será que dessa vez você tinha razão? Bobagem!”.
Nas últimas semanas que antecederam sua morte, Zac disse que andava ouvindo vozes, que se sentia observado e perseguido quando passava pelo mesmo corredor que ele, Marcus, caminhava agora, durante os plantões noturnos. Zac andava nervoso, desatento, chegou a trocar as identificações de dois cadáveres, um verdadeiro desastre.
Sem perceber tinha parado em frente ao elevador do 6º andar, local do fatídico acidente, lançando um olhar vago para o fundo do poço escuro, distante. Por um instante teve a impressão de ver, através da porta pantográfica, o corpo inerte do amigo. “Pare com isso Marcus ou você vai acabar como o Zac!”, disse para si mesmo e foi buscar o material que o legista-chefe, Dr. Benjamin, havia lhe pedido há mais de 15 minutos.
Assim que cumpriu sua tarefa, voltou ao corredor deserto decidido a tirar uma soneca antes do lanche da madrugada. Ficou contemplando o pé-direito altíssimo, característico das antigas construções. Aquele edifício datava do século XIX e tinha o odor dessa época, parecia que estava impregnado nas paredes. À noite, a iluminação fraca projetava sombras sinistras e o silêncio dos últimos andares era quebrado pelos gemidos de dor dos pacientes do quarto andar, ruídos fantasmagóricos... Talvez esses sons tivessem contribuído para afligir ainda mais o espírito perturbado do seu falecido amigo.
Adormeceu e teve um sono agitado. Sonhou como há muito não fazia ou não lembrava que fazia. No sonho andava pelos corredores escuros do hospital, empurrando o corpo de um jovem que havia sofrido um acidente durante uma escalada. Ele tinha a cabeça fraturada, uma fratura tão grande que era possível ver a massa encefálica, além de estar com a clavícula exposta e o corpo todo escoriado. Os ferimentos eram feios e, apesar da limpeza superficial que os enfermeiros haviam feito, o corpo tinha muito sangue ressecado cobrindo a pele.
De repente, o cadáver sentou-se na maca e começou a falar com uma voz rouca que parecia vir das profundezas da Terra, mas que, contudo, lhe parecia familiar. Ele, Marcus, empurrava a maca como que hipnotizado, seguindo o comando daquela voz que trazia as lembranças da faculdade, despejando ressentimentos, mágoas, invejas. Era a voz de Zac!
Pararam à beira do elevador. O morto levantou-se, contornou a maca, abriu a porta pantográfica e do poço várias vozes clamaram. Marcus sentiu apenas o toque gélido e suave de uma mão nas suas costas. Fechou os olhos e mergulhou.
Despertou assustado sentindo seu corpo extremamente solto e a lufada de vento no seu rosto. Esfregou os olhos, achando que estava sonhando dentro do sonho, mas quando conseguiu abrí-los só teve tempo de enxergar a escuridão final.

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