sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A veeméncia de um bom passado.

Ah! A nostalgia. Como é bom saborear o passado. Pena nunca haver uma maneira de revivê-lo ou estipular uma forma de ele sempre se fazer vivo, a não ser pela lembrança. Nostalgia é apenas sensação e nada mais.

Um dia desses lembrei-me de meu pai tentando me ensinar a soltar pipas; Sou daquela geração vítima dos prédios e das cercas sociais e meu contato com a poeira da infância e com as fajutices das bobas discussões sobre uma falta não-marcada nunca me aconteceram. Na verdade, nem bola sei jogar. E também me foi sublimada a pipa. Porém, a lembrança do meu pai tomando conta da situação é que quase me fez chorar por pouco ter percebido naquela época como aquilo me foi bom. Não tenho pretensões de ir aprender a empinar pipas, mas sei que ali não era meu pai, era o antigo menino na carapuça de adulto.

Lá de cima do apartamento, minha mãe gritava o ridículo de um velho soltando pipas enquanto devia ensinar. Até parecia que o velho tinha me roubado um doce ou algo pior. Mamãe não percebera que não era papai, era um garoto que eu nunca teria chances de conhecer, a não ser pelas nostalgias do meu coroa. Aquela era uma boa lembrança.

A nostalgia é o romantismo tomando as rédeas, a saudade em forma de escapismo. Porém, não como fuga de uma realidade ruim, posto que todas as realidades sejam ruins, mas é através desta mesma realidade que devemos dar chances para as nostalgias – ruins ou não, inventadas ou não – pois sem realidade não há vontade para as tais.

Penso que uma pergunta tenha vindo de surpresa àqueles que me leem agora. Como a realidade pode ser ruim, já que gera boas lembranças? Perceba – e agora faço jus ao didatismo fruto de minha profissão -, pense em um dia de futebol e churrasco com os amigos. Aquela boa cerveja, aquela carnezinha no ponto certo, tudo da mais singela perfeição. Uma hora o futebol acaba, a cerveja não mais existe e a carninha não mais está lá. Tudo é posto ao fim, a um limite, a um claro término. É a morte em instantâneo de câmara fotográfica, estático e limitado. Mas como uma foto, a realidade gera lembrança, e aí reside a beleza dos fatos, a veeméncia da vida. Este passado que cutuca o coração e se brota em um sorriso bobo. E não precisa de muito para as nostalgias. Às vezes, um belo por do Sol já basta.

Por isso, não recrimino mamãe pelo que fez. Ela apenas trouxe papai para o nublado da certeza de sua obrigação, o plúmbeo gosto de sua idade e razão de estar ali, mas ela me deu margem para ver que a vida se vive até ontem e que hoje é só uma chance a mais para criar vida. E ponto final.

5 comentários:

Anderson Titonelli disse...

Adoro a construção das suas frases Calixto. seu texto tem trechos que me fascinam como: "Ela apenas trouxe papai para o nublado da certeza de sua obrigação, o plúmbeo gosto de sua idade e razão de estar ali" seu texto me lembrou de uma passagem otima do livro: Uma vida interrompida de Alice Sebold que a personagem fala exatamente sobre essa "Carapuça" que os pais usam e não deixam os filhos conhecerem o que realmente são.

Adorei o texto.
Parabéns!

Márcio Calixto disse...

Anderson, que bom que você gostou do texto. Eu os escrevo para aqueles que estão vivos, que gostam da vida, e que percebem a vida. Você, com certeza, é um deles.Obrigado pelo comentário...

Cerestino disse...

excelente texto.

também não senti a poeira, nem tenho as cicatrizes das cercas puladas...

nem posso afirmar, como meu irmão faz com propriedade: "as melhores peladas são aquelas que vc tem que arrumar o 'golzinho' toda vez que a bola bate nele."

mas tento viver e conhecer aquilo que me dará um futuro nostálgico. Ao meu modo...

°°mila°° disse...

Quem nunca se perdeu em sua nostalgia e se pegou rindo sozinho?
É interessante ler seu texto e perceber que o tema retratado é tão próximo.
Um trecho que achei fantástico foi:" a vida se vive até ontem e que hoje é só uma chance a mais para criar vida". Confesso que senti uma vontade de quebrar minha inércia e fazer aquilo que creio valer a pena, de me arriscar. Porém, esta idéia muda e caio novamente em minha rotina por não ousar me arriscar. O medo de dar errado faz com que muitos se prendam a rotina, ao estático.
Seu texto fez com que eu refletisse um pouco mais sobre mim...

um grande beijo prof
Camila da Cunha

Márcio Calixto disse...

Mas, Camila,
a vida é a consistência daqueles que nela se encontram, e até mesmo se perdem. Não pense somente como fruto da rotina existir a própria inércia. A inércia é apenas um impulso, uma inconstância que serve para dar o passo mais forte, que é sempre o primeiro. Use o texto para você se respaldar e se motivar, é para isso que ele serve.

beijos

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